A ORIGEM DA LINGUAGEM ENTRE OS HOMINÍDEOS
- Ribas Carneiro
- há 11 horas
- 5 min de leitura
Fiz este ensaio sobre as origens da linguagem com base nos estudos e reflexões de Eugen Rosenstock-Huessy.
Antes de nossa espécie, Homo sapiens, a linguagem já tinha uma longa trajetória de desenvolvimento. As bases foram, então, herdadas. Mas sobre quais princípios se assentou a origem da linguagem?
A LINGUAGEM DOS ANIMAIS E DOS PRIMEIROS HOMINÍDEOS
A linguagem dos animais tem chamado cada vez mais a atenção dos pesquisadores. Ela pode revelar elementos básicos da comunicação humana.
Pássaros se comunicam com trinados e cantos, cães uivam e latem, gatos miam e ronronam, baleias cantam. Os animais têm linguagem básica, sem signos, mas com modulações que comunicam algo.
Hominídeos anteriores, como os australopitecos, viviam em bandos e se comunicavam. Seu modo de vida e organização talvez fosse como dos atuais primatas superiores, gorilas, chimpanzés e orangotangos.
Entre os australopitecos, manuports e ferramentas líticas indicam alguma evolução.

Um milhão de anos em ferramentas de pedra, desde os mais remotos hominídeos até as primeiras ferramentas do Homo sapiens.
A ORIGEM DA LINGUAGEM ENTRE OS HOMO ERECTUS
Entre os hominídeos, o Homo erectus é, sem dúvida, o campeão em sobrevivência e ativação de tecnologias e habilidades.
Vários artefatos arqueológicos se relacionam com essa espécie, fogueiras, ferramentas e gravações, como a da concha de Java. Esses achados indicam organização social mais evoluída e certa complexidade de pensamento, que depende de comunicação.
Assim, é bem provável que o Homo erectus tenha utilizado linguagem. Mas como era?
Não há como saber como eram seus sons, se usavam estruturas sintáticas ou emitiam apenas sons guturais. Com certeza, não se trata de linguagem plenamente desenvolvida como a nossa.
Para desenvolver uma hipótese, podemos analisar o grau de comunicação entre bandos de gorilas e chimpanzés. O Homo erectus estaria alguns graus acima dessas espécies.
AS PRIMEIRAS PALAVRAS
Entre os Homo erectus, as primeiras palavras podem ter surgido de interações com sons guturais, como urros, gritos, gemidos e sussurros. Certos sons foram se repetindo e ganhando sentidos mais restritos.
Dá para supor que as primeiras palavras foram ordens. Interjeições no imperativo ordenavam alguém do bando fazer algo, evitar um perigo, acelerar o passo, subir numa árvore.
Esses imperativos podem ter tido inúmeras modulações e usados em infinitos contextos. Eram, em suma, polissêmicos, ou seja, cheios de sentidos que variavam com a situação.
Aos poucos esses imperativos ganharam sentido mais objetivo. Num ritual qualquer eles se tornaram uma ordem a ser obedecida por todos. Ao passar pelo ritual, a expressão tornou-se sagrada, assim se tornou um signo assimilado pelo grupo. O sentido estava estabelecido.
O rito não precisa ser necessariamente espetacular. De forma natural, ordens de ataque ou gritos de júbilo passaram a ser usados apenas em contextos específicos.
NÃO INVENTAMOS A LINGUAGEM, NÓS A HERDAMOS
Tudo isso ocorreu de maneira muito lenta. Espécies hominídeas posteriores herdariam a estrutura básica de linguagem e a desenvolveriam. Neandertais e denisovanos já tinham uma linguagem bem mais evoluída, como revelam registros em ferramentas e até pinturas rupestres.
Nossa espécie, Homo sapiens, herdou um arcabouço linguístico com longuíssima história. O cérebro de nossa espécie, porém, tem uma estrutura mais dinâmica. Isso o torna capaz de aprendizagem de forma diferente à de outros hominídeos.
Os neandertais, por exemplo, aparentemente não faziam apropriações culturais e talvez isso tenha condenado a espécie. O Homo sapiens, por outro lado, aprendeu com trocas sociais, isso permitiu maior aprendizagem de tecnologias.
Assim, quando nossa espécie surgiu, ela já estava dentro de uma estrutura linguística pré-existente. A partir desse ponto, por centenas de milhares de anos, nossos ancestrais desenvolveram lentamente as formas de expressão.
Com o Homo sapiens é provável que tenham surgido outras modulações de voz para respostas aos imperativos. Apareceram então os modos verbais, mais adaptados à narração.
É de se supor também que aos poucos o centro da língua tenha se mudado para os nomes (substantivos). Nomear algo é fazê-lo existir. Sobre o nome se assenta o mito, o pensamento abstrato.
Apenas depois, num contexto menos formal, vieram os pronomes, os artigos, as preposições. Essas palavrinhas operacionalizavam as cada vez mais complexas estruturas sintáticas.
A LINGUAGEM É RESULTADO DE AÇÕES SOCIAIS
A organização social dos primeiros humanos refletiu as estruturas sociais dos hominídeos anteriores.
Com o tempo os bandos viraram pequenas sociedades. Os grupamentos sociais, mesmo pequenos, trouxeram novas dificuldades. Os indivíduos tiveram de evitar o extermínio mútuo por conta da disputa por objetos, fêmeas e proles.
Para evitar a posse à força, a família e a propriedade foram se estabelecendo. As estruturas familiares deram margem ao crescimento populacional. Aos poucos, os grupamentos evoluíram e tomaram a forma de comunidades, como tribos.
As negociações em grupos maiores, com estrutura familiar em seu centro, exigiam uso mais sofisticado da linguagem. Não bastavam assobios, urros, gritos e silvos. Agora entravam em cena palavras em contextos formais para tratar de assuntos comuns.
Há aqui alguma reciprocidade: não houve desenvolvimento de linguagem sem desenvolvimento social, e não era possível o desenvolvimento social sem o desenvolvimento da linguagem.
A FORMALIDADE NO CENTRO DA ORIGEM DA LINGUAGEM
Quando estamos num grupo de pessoas e temos de decidir algo em conjunto, é fatal que se estabeleça alguma ordem de fala. Se todos quiserem ter a palavra ao mesmo tempo não haverá entendimento.
Imaginemos então como eram tomadas as decisões naqueles primeiros grupos. Na preparação da caça, alguém teve de tomar a palavra e organizar a participação dos outros.
Esse foi um momento de formalidade. Era preciso escolher as palavras com precisão, dar a voz a quem de direito, respeitar uma ordem. Quem ganhava a vez de falar assumia a voz de autoridade e por isso tinha de usar o mesmo tom.
O formalismo estava presente também nos momentos de narração. Afinal alguém tinha de estabelecer uma ordem para falar, cantar e lembrar os feitos. As narrativas poéticas das epopeias são exemplos de texto antigos com linguagem elevada.
A linguagem plenamente estruturada emerge, assim, em situações sociais formais. A voz se submete às convenções sintáticas e vocabulares em meio a negociações sociais, políticas e religiosas.
O desenvolvimento da morfologia, da sintaxe e de outras estruturas verbais foi ditado pelas contingências.
Por exemplo, em algum momento tornou-se necessário preservar uma narrativa. O único suporte era a própria palavra, que precisava ser preservada na memória. Para isso, utilizou-se o recurso das rimas, dos ritmos, das canções.
Foi assim que nasceu a poesia, uma das formas mais antigas de arte. Essas estratégias de memorização serviram também para preservar os conhecimentos técnicos. A literatura virou suporte para a ciência.
Aos poucos, nossa espécie se preparava para desenvolver as civilizações.
Há 120 mil anos havia grupos humanos espalhadas por todos os cantos, muitos em relativo isolamento. Havia, é claro, uma variedade imensa de línguas que acabaram moldando (e sendo moldadas) o processo de construção de civilizações. Mas isso é conversa para um outro Bibliocanto.
A ORIGEM DA LINGUAGEM, DE EUGEN ROSENSTOCK-HUESSY
As origens da linguagem e da cultura são temas fascinantes. Hoje há muitos estudos nesse campo, mas nem sempre foi assim. A origem da linguagem chegou a ser descartada como tema sério de investigação.
Uma obra pioneira foi A origem da linguagem, de Eugen Rosenstock-Huessy.
Para este autor, as interações informais, cotidianas, dos humanos não seriam muito diferentes das interações dos animais. Assim, para investigar a origem da linguagem cabe analisar sua expressão formal e estruturada.
Serviço
ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. A origem da linguagem. Trad. Câmara, Pedro Sette et alii. Rio de Janeiro/São Paulo, 2002.
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