A ORIGEM DA LINGUAGEM, EUGEN ROSENSTOCK-HUESSY
- Ribas Carneiro
- 3 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 27 de dez. de 2025
Em A origem da linguagem, Eugen Rosenstock-Huessy toma a formalidade como o elemento estruturador da linguagem.
A origem da linguagem, de Eugen Hosenstock-Huessy, é um livro de caráter filosófico e ensaístico. Com amplo uso de metáforas e outras figuras de linguagem, o autor toma os processos gramaticais como fundamento de sua análise.

Foto: Capa de A origem da linguagem, de eugen Rosenstock-Huessy. Fonte: Bibliocanto.
O livro é póstumo, publicado em 1981, e é uma obra pioneira na reabilitação dos estudos sobre a origem da linguagem.
Logo de saída, o autor critica as abordagens propostas pelas teorias da linguagem em voga nos anos de 1970. Os estudos sobre linguagem da época se concentraram em atos de fala básicos e informais. Para o autor, porém, a linguagem estruturada e formal é a realização máxima da linguagem.
Ele aponta, então, para o caminho oposto: investigar a origem da linguagem tomando a linguagem formal como elemento estruturador.
De acordo com essa concepção, as interações informais, cotidianas, não seriam muito diferentes das interações dos animais. Mas a linguagem humana se diferenciaria justamente por sua complexidade e estruturação. Logo, para investigar sua origem cabe analisar a linguagem formal e estruturada.
FORMALIDADE E INFORMALIDADE
Popularmente, a formalidade é tida como “burocrática”. Nela, modos de dizer ou de se comportar precisam ser medidos e seguir uma certa praxe. Mas a formalidade está entranhada em nossos atos cotidianos.
Somos, por exemplo, mais “cerimoniosos” no trabalho do que em casa. Em ambientes formais, utilizamos vocabulário mais específico e caprichamos na flexão verbal e nominal.
Ao usar linguagem informal diminuímos o distanciamento e a respeitabilidade de algo ou alguém. De acordo com Rosenstock, a informalidade é uma reação à formalidade.
Assim, a formalidade precede a informalidade. Mas como seria isso possível?
De acordo com o autor:
“Lógica e historicamente, a linguagem formal antecede a informal, e sucede à linguagem animal. Antecipando nosso resultado, podemos falar em: 1. Linguagem animal pré-formal; 2. Linguagem humana formal; 3. Linguagem informal, desleixada. A linguagem informal vale-se tanto da pré-formal quanto da formal; ela é um composto das duas.”
Existe então um salto da linguagem pré-formal para uma linguagem formal, que predominou e predomina entre os grupos humanos adultos, em ambientes formais.
Grupos informais, como crianças numa creche, jovens de uma gang ou um pelotão de soldados, tendem a rebaixar a linguagem à informalidade. Trata-se de uma reação contra a formalidade.
Para o autor, buscar respostas sobre a origem da linguagem nas crianças e nas interações do dia a dia é manter-se perto da linguagem dos animais. Por ele, o olhar deve se voltar para os atos formais de linguagem.
Essa é a razão de Rosentock se opor à busca pela linguística e pela filosofia em buscar respostas sobre a origem da linguagem nas interações do dia a dia . Para ele, a investigação deve se concentrar nas interações entre adultos, em ambientes formais.
Se tomarmos, entretanto, a linguagem formal como elemento estruturador da linguagem humana, como explicar o salto da linguagem pré-formal para a formal?
DA LINGUAGEM PRÉ-FORMAL PARA A FORMAL
Na visão de Eugen Rosenstock-Huessy, o grande salto da linguagem pré-formal para a formal foi o estabelecimento dos nomes (substantivos). Eles seriam um dos principais diferenciais entre a linguagem humana e dos animais.
Os sons dos animais são pré-gramaticiais, sem ordem sintática complexa ou classes de palavras. Por mais que a linguagem de baleias, golfinhos ou pássaros seja articulada, ela não tem nomes. Um animal não pode nomear algo, assim, não há possibilidade de construir cultura, nominar entes, objetos ou sensações.
A linguagem do homem, porém, é articulada, gramatical e nominal.
“As formas gramaticais e os nomes podem ser considerados os sintomas que provam que a linguagem animal foi superada pela linguagem humana articulada” (ROSENSTOCK-HUESSY).
Os nomes são fundamentais numa linguagem formal, que pode ser então chamada linguagem nominal.
Os nomes são a realização grandiosa da linguagem humana, de acordo com Rosenstock-Huessy. O autor dá tanta importância aos nomes que desenvolve a seguinte classificação:
Linguagem pré-formal ► pré-nominal
Formal ► nominal
Informal ► pronominal
A linguagem pré-formal não apresenta nomes, é a dos animais.
A linguagem formal é baseada no nome.
A linguagem informal é pré-nominal, pois recorre aos pronomes e a estruturas simplificadas. Nela, predominam os pronomes, que substituem os nomes e diminuem o tom da linguagem.
Falar formalmente é recorrer aos nomes das coisas e dos indivíduos, adicionando certo tom cerimonial ao discurso. Na intimidade isso não ocorre, pois utilizamos mais gestos e pronomes, somos informais.
Há situações que ficam entre a formalidade e informalidade. Nas histórias infantis, nos papos de vendedor, nas fofocas, piadas, propagandas e programas de tv, ocorre certa indecisão entre as formalidade e informalidade.
Nesses casos, de acordo com o autor, a linguagem é nominal, recorrendo a gestos, insinuações e sugestões dentro do domínio do pronome.
Essa linguagem diminuída não é necessariamente ruim, na verdade ela funcionaria como uma proteção contra o desgaste e banalização dos nomes. Isso se dá por meio do uso de apelidos, formas curtas e pronomes.
“Os pronomes protegem os nomes nos lugares e momentos em que seu uso não é autêntico. Procurando o lugar autêntico da linguagem, agora encontramos o lugar autêntico da linguagem pronominal: onde a linguagem formal está fora de contexto, entram os pronomes.” (ROSENSTOCK-HUESSY)
ATUALIDADE E APLICABILIDADE DOS CONCEITOS DO AUTOR
As ideias de Rosentock-Huessy em relação à origem da linguagem são bem amplas e complexas. Merecem a leitura, com certeza. Aqui para nosso caso, entretanto, podemos destacar apenas alguns pontos.
Em primeiro lugar, a definição de uma linguagem pré-gramatical ou pré-nominal é muito interessante se aplicada ao caso do desenvolvimento da linguagem entre os hominídeos.
É interessante notar que resquícios arqueológicos de 200 mil anos atrás revelam preocupação com o pós-morte (funerais) e a representação de pessoas (Vênus de Tan-Tan e Vênus de Berekhat Ram).
Seria esse mais ou menos o momento de nominalização da linguagem de que fala o autor?
Pode ser. Esses objetos revelam interesse na figura humana, que já deveria estar sendo nomeada. Essas representações de humanos também devem ter sido nomeadas. Se a hipótese do autor estiver certa, aquele seria o período de emergência da linguagem.
É bem provável que o surgimento dos nomes tenha se dado formalmente mesmo, em situações ritualísticas.
Toda e qualquer atividade religiosa implica em invocação do nome sagrado. Então, é provável que os primeiros nomes invocados o foram em situações sagradas. Os nomes estariam, assim, envolvidos em uma estrutura privilegiada de formalidade.
Mais tarde, os nomes foram sendo multiplicados na nomeação de objetos e indivíduos. Essa nomeação deve ter se revestido de formalidade e cerimonialismo, ficando para as práticas diárias a linguagem pronominal reduzida.
“A história não é simplesmente um assunto que remonta a dez mil anos; a pré-história está entre nós.” (ROSENSTOCK-HUESSY)
As teorias de Eugen Rosenstock-Huessy lançaram luzes sobre a questão da origem da linguagem. Hoje, as ideias do autor se reforçam sob o impacto de novas descobertas arqueológicas.
BIBLIOGRAFIA:
ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. A origem da linguagem. Trad. Câmara, Pedro Sette et alii. Rio de Janeiro/São Paulo, 2002.
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