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POR ONDE COMEÇAR A ESTUDAR A PRÉ-HISTÓRIA?

Atualizado: 27 de dez. de 2025

Pré-história, de Chris Gosden, é um material introdutório indicado para iniciantes.


Ao começamos a estudar um assunto novo, o primeiro passo é encontrar uma obra que apresente um panorama geral.  Nesse sentido, Pré-história, de Chris Gosden, é para quem quer iniciar os estudos sobre pré-história.


ANÁLISE

O título já indica, esse livro tem foco bem amplo. Por isso, peca em alguns momentos pela superficialidade, mas é uma boa introdução aos estudos da pré-história.

 

Chris Gosden defende a ideia de que o ser-humano desenvolve cultura a partir de sua relação com os materiais ao seu alcance. Tais materiais se tornam ferramentas e ganham conteúdo simbólico.

 

O ponto de vista é interessante, pois, além de linguagem, o ser-humano teria uma certa cinestesia que lhe permite uma percepção múltipla dos materiais.

 

Ao final, porém, o autor, de maneira um tanto superficial, deixa-se contaminar pela onda atual de estudos de gênero.

 

O ponto alto fica por conta da apresentação de como se construiu o conceito de pré-história. Mas outras questões são bem trabalhadas, como as relativas à arqueologia, à etnologia e à reconstrução histórica.

 

Trata-se de leitura proveitosa para aqueles que têm interesse numa visão panorâmica da pré-história.


A seguir, alguns conceitos que se destacam nessa obra.


Foto: capa de Pré-história, de Chris Gosden. Biblicanto.


A HISTÓRIA DO CONCEITO DE PRÉ-HISTÓRIA

Um dos pontos altos dessa obra é, sem dúvida, a abordagem do autor em relação à construção do conceito de pré-história. Para Gosden:


“A determinação de uma pré-história de longa duração é uma das grandes conquistas daquele século [XIX].”

 

De fato, a compreensão da evolução genética dos hominídeos e a ampliação da datação histórica é um dos maiores feitos de todos os tempos.

 

No Ocidente, com a descoberta da América, no século XVI, criou-se a necessidade de determinar de onde tinham vindo aqueles povos que jamais tinham sido mencionados na Bíblia.

 

O problema se desenvolveu de forma lenta, tornando-se cada vez mais central com a emergência dos estados e das discussões sobre ancestralidade e nacionalidade.

 

No século XVII, o bispo Ussher estimou que a terra surgiu em 4004 a.C. Ele chegou a essa data tão precisa se baseando na Bíblia. A explicação para a origens dos povos continuou sendo de ordem genealógica.

 

Em 1859, Charles Darwin publicou A origem das espécies. Iniciava-se ali uma disputa entre o empirismo científico e a fé, algo que se estabilizou posteriormente com vantagem para a ciência.


Apenas um ano antes, em 1858, ocorreu a escavação da caverna de Brixham, na Inglaterra. Na ocasião artefatos produzidos pelo homem foram encontrados junto a vestígios de animais há muito extintos, particularmente mamutes e rinocerontes-lanudos.

 

A partir daquelas descobertas, Sir Charles Lyell assumiu a possibilidade de que a pré-história fosse imensamente longa. Assim, o mais influente arqueólogo britânico da época afirmou publicamente que deixava de lado seu ceticismo anterior em relação à “idade do homem”.

 

QUAL A IMPORTÂNCA DA PRÉ-HISTÓRIA?

A pré-história é o imenso período de existência humana sem uso de escrita. Logo, o termo também compreende o desenvolvimento de ancestrais hominídeos, como os australopitecos, Homo habilis e Homo erectus.

 

Gosden, no entanto, dedica a maior parte do livro à nossa espécie: Homo sapiens sapiens. Há cerca de 120 mil anos, munida de pedras lascadas, ossos e pedaços de pau, a humanidade sobreviveu e começou a se desenvolver.

 

Por conta de suas limitações e fragilidades, nossos ancestrais tiveram de apostar na cooperação social e na exploração do ambiente:


“Nossa condição humana reside na cooperação social e em uma flexibilidade de reação física e mental ao mundo, e as origens de todas essas habilidades nos fascinam."

 

Eis a importância da pré-história: ficamos fascinados com as capacidades desses nossos ancestrais. Mas mais importante, muitas questões de nossa era podem ser explicadas observando esse passado remoto.

 

COMO ESTUDAR E RECONSTRUIR A PRÉ-HISTÓRIA?

Estudar a pré-história é algo bem diverso do estudo histórico que conta com a escrita como uma de suas fontes. As fontes arqueológicas são muito lacunares, e essas lacunas precisam ser preenchidas com informações adicionais.

 

Isso traz o risco de surgir muita “literatura” no trabalho do historiador. Gosden, destaca que é preciso impor limites à imaginação e buscar sempre dados mais objetivos.

 

Outro ponto central para o estudo da pré-história é não tentar entendê-la apenas a partir dos conceitos de nossa atualidade. Na verdade, as teorias usuais para estudo da história não são apropriadas para o estudo da pré-história.

 

Afinal, não é possível, por exemplo, estudar a pré-história utilizando conceitos de economia ou de classe social. Isso porque as estruturas socioeconômicas dos povos pré-históricos eram totalmente diferentes das que conhecemos hoje.

 

De acordo com Gosden, mais apropriado seria analisar do ponto de vista das relações sinestésicas com os materiais, inclusive a produção de ferramentas.

 

QUANDO TERMINA A PRÉ-HISTÓRIA?

A pré-história termina quando surge a escrita. Porém, a escrita não surge ao mesmo tempo para todos, nem é repentina e sequer é algo definitivo.

 

Gosden relata, por exemplo, que, na ilha de Creta, a Civilização Minoica desenvolveu uma escrita pictográfica entre 1600 a.C. e 1200 a.C. No entanto, essa escrita foi abandonada e desapareceu. Apenas muito mais tarde ressurgiu a escrita na ilha com a adoção do alfabeto grego.

 

O fim da pré-história não se dá de maneira linear, ela acontece devido a vários fatores em meio a várias idas e vindas.

 

Há casos mais dramáticos, é claro. Certa vez, os nativos da Nova Guiné viram um avião e poucos dias depois receberam a visita de exploradores europeus, eles viram ali o fim de sua pré-história, que foi inclusive filmada.

 

No Brasil, a pré-história terminou com a chegada dos europeus. No México, porém, não se pode dizer o mesmo, pois já havia uma escrita que se perdeu com a chegada dos europeus.

 

Na Bretanha a pré-história termina com as conquistas romanas sob o comando de Júlio César.


Muitas vezes, influenciados por nosso universo logocêntrico, imaginamos que os indivíduos da pré-história não tinham cronologias ou cultura. Porém, aqueles povos ágrafos tinham cultura e até formas de história e cronologia, diferentes da nossa, é claro, mas eram sistemas que funcionavam.

 

GENÉTICA E CULTURA

Chris Gosden demonstra que nossa herança genética não explica, por si só, a existência de cultura. Esta seria resultado de uma relação intrínseca e muito especial entre os humanos e as coisas materiais.

 

Apesar de habilidosa, nossa espécie passou muito tempo sem fazer coisas “de humanos”. Há apenas uns 60 mil anos, no período paleolítico Médio e Superior, ocorreu uma mudança significativa. Aos poucos nossos ancestrais se desprenderam dos imediatismos da vida, assim, o tempo e o espaço se alargaram.

 

A combinação especial de habilidades corporais com o mundo material e a dimensão da linguagem tomou forma moderna há cerca de 40 mil anos. Central nesse processo é a cultura material que os humanos desenvolveram.


A partir de então, todo ser humano plenamente moderno apresentou a capacidade de cultura. Eventualmente, alguns grupos não exercitaram ou aprenderam certos elementos culturais, mas todos os humanos têm relação com coisas, plantas, animais e objetos. Isso se desenvolveu ao longo de milênios.

 

As formas culturais que se desenvolveram ao longo dessas dezenas de milhares de anos são extremamente variadas. A variedade é tamanha que não seria legítimo analisá-las a partir de um único eixo, como civilizadas ou não.

 

Gosden assume, assim, um conceito central para a antropologia: a rigor, as culturas não seriam mais ou menos complexas ou ainda piores ou melhores, apenas diferentes. As comparações interculturais seriam legítimas apenas para revelar contrastes e não para medir todas as culturas por um só parâmetro.

 

CRÍTICA À OBRA

Pré-história, de Chris Gosden, é um livro muito rico em informações para iniciantes. O autor é um arqueólogo e historiador experiente e é preciso reconhecer que conseguiu fazer uma obra muito útil. No entanto, alguns de seus posicionamentos enfraquecem sua abordagem.

 

Passível de crítica, por exemplo, é como Gosden identifica o ocidental como um ser voltado para atitudes egoístas. Ele se concentra principalmente nas atitudes culturais do Ocidente nos últimos dois séculos.

 

O problema dessa concepção, hoje muito comum em meios acadêmicos, é que ela deixa de lado, por exemplo, o sentido cristão de amor ao próximo. Ora, o pensamento cristão está no cerne da cultura ocidental. Isso é tão verdadeiro que o próprio julgamento que se faz ao individualismo é baseado em conceitos de fraternidade de origem cristã.

 

Outro ponto de crítica é a defesa de Gosden à tese de que o gênero é puramente cultural. Para tanto ele apresenta dois exemplos.

 

O primeiro são os deuses de um terceiro sexo entre grupos indígenas norte-americanos e entre os hijras, da Índia. O outro exemplo são as figuras de duas cabeças e órgãos sexuais femininos e masculinos encontrados num sítio arqueológico que remete à civilização micênica.

 

Os exemplos não são convincentes, além de muito delimitados, eles fazem referência a elementos divinos. Não se trata, obviamente, de representação do universo natural realista.

 

Em contraposição, existem muitos milhares, senão milhões, de outros artefatos encontrados ao redor do mundo que reforçam a diferença entre macho e fêmea, tanto nas representações de humanos quanto de animais.

 

Parece óbvio concluir que, para as sociedades humanas, desde o paleolítico até o neolítico e a Era do Bronze, a diferença entre macho e fêmea na natureza é algo muito objetivo e puramente observável.

 

CONCLUSÃO

A Pré-história, de Chris Gosden, não se limita aos aspectos apontados aqui. É uma obra bem abrangente, enciclopédica, bem organizada.

 

Como qualquer outra obra, ela exige discernimento do leitor. Afinal, faz parte da leitura ativa pôr à prova os conceitos que são apresentados.


REFERÊNCIA

GOSDEN, Chris. Pré-história. Trad.: MARCOANTONIO, Janaína. Porto Alegre: L&PM, 2012.

 

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Essa é uma produção independente, sem patrocínio de qualquer natureza.

As menções a obras são espontâneas e não constituem indicação de compra.

Esse material foi redigido por um humano sem uso de inteligência artificial.

Você pode usar trechos do texto, desde que cite a fonte.



4 comentários

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Convidado:
22 de abr. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Olá, professor Cleverson Desculpe a demora para responder. Eu recebo e-mail da FAPESP. Às vezes, aparecem textos que me interessam. No e-mail do dia 17/04/2025 saiu um assunto sobre linguagem também!! "Linguagem humana já estava presente há pelo menos 135 mil anos". É uma entrevista com um linguista chamado Sigheru Miyagawa. Eu não conheço esse linguista. Não sei se você leu. Se não leu, o link é https://agencia.fapesp.br/linguagem-humana-ja-estava-presente-ha-pelo-menos-135-mil-anos/54506 Abraços!!!

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Ribas Carneiro
Ribas Carneiro
30 de abr. de 2025
Respondendo a

Olá!

Muito obrigado pelo link! Vou ver! Tenho grande interesse nesse assunto. Tenho trabalhado com esse tema e em breve vou publicar mais um post sobre origem da linguagem.

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Convidado:
06 de abr. de 2025

Olá Janete!

Quanto tempo!

Tudo bem?

Você não achou o texto sobre a linguagem porque ele virá na próxima semana aqui no Bibliocanto. Mas como você é cadastrada, recebe os conteúdos novos por e-mail, antes de serem publicados no site.

Adorei seu texto. Sim, esse é um assunto inesgotável. Já deu muito pano pra manga nos últimos dois séculos!

Apenas recentemente vi esses dados que apontam para a existência de algum nível de linguagem entre os Homo erectus. Isso escapou ao Eugen Rosenstock-Huessy.

Aliás, o livro dele sobre a origem da linguagem foi um dos que despertaram em mim esse interesse. Trata-se de um livro maravilhoso, daqueles que nos enchem de ideias.

Talvez eu faça uma resenha sobre ele e…

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Janete Palma
Janete Palma
06 de abr. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Olá, Prof Cleverson! Minha intenção era comentar sobre o último texto que você enviou: A LINGUAGEM COMEÇOU COM O HOMO ERECTUS ? Porém, eu não o achei aqui no site. Gostei do texto. Hoje, por coincidência, eu e o meu marido conversamos sobre como começou a linguagem. Foi uma conversa complicada. KKK Meu marido já tem até pós doutorado e eu um lato sensu. Mas meu marido não se impõe sobre a minha capacidade. Ele respeita o meu limite. É didático (claro, foi professor) e me explica tudo. Meu marido falou sobre o livro "A origem da linguagem", de Eugen Rosenstock-Huessy. Eu não li. Você já leu? Ele disse que é um bom livro. Pretendo ler. O teu texto é interessante, pois você…

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