EPOPEIA DA CRIAÇÃO
A leitura de um dos poemas mais bem preservados da literatura babilônica é um desafio, mas vale o esforço.
COSMOGONIA BABILÔNICA
A Epopeia da criação ou Enüma elis, em acádio, é um dos poemas babilônicos mais bem preservados. De suas sete tabuinhas, apenas a quinta apresenta lacunas relevantes. Isso é particularmente notável ao consideramos que se trata de um texto de cerca de 2100 a. C.
Hoje, o texto é mais conhecido como Epopeia da Criação, mas na antiguidade era chamado Enüma elis (Quando no alto). Isso ocorria porque os poemas eram tradicionalmente denominados por suas primeiras palavras.
Essa obra foi reconstituída a partir de fragmentos pertencentes a diferentes épocas. As tabuinhas oriundas da Biblioteca de Assurbanipal são do século VII a. C. (685-628). Mas há sete tabuinhas muitos mais antigas, encontradas em Assur, datando do século IX a.C.
O poema deve ter circulado oralmente por cerca de dois séculos até ser registrado com escrita cuneiforme em tabuinhas de argila. Sua composição coincidiria, então, com a conquista do Elam pelo rei Nebucadnezar (1125-1104 a. C.). Esse seria então um poema para celebrar a vitória e a glória do deus da Babilônia, Marduk.

OBRA ESQUECIDA POR SÉCULOS
A Epopeia da Criação caiu em profundo silêncio por três mil anos. Apenas em 1876, George Smith traduziu seus primeiros trechos.
Smith já tinha traduzido a narrativa babilônica de dilúvio , presente na Epopeia de Gilgamesh. A narrativa das águas primordiais da Epopeia da Criação lhe chamou a atenção também por suas similaridades com o Gênesis.
Desde então, os trabalhos de muitos estudiosos permitiram o estabelecimento do texto em bases bem satisfatórias.
A TRADUÇÃO BRASILEIRA
A partir de um arcabouço bem fundamentado, esse poema foi traduzido para o português pelo professor Jacyntho Lins Brandão. Ele já traduziu também a Epopeia de Gilgamesh e Ao Kurnugu, terra sem retorno.
Essa edição, de 2022, é primorosa, riquíssima em notas e explicações, um belo trabalho acadêmico, feito com rigor e profundidade. As notas são essenciais para o leitor, por se tratar de uma obra de mitologia muito antiga e distante, temporal e geograficamente. Sem essa contextualização a leitura seria quase impossível.

UMA MITOLOGIA DESCONHECIDA
É muito difícil entrar em contato com uma nova mitologia por meio da leitura de uma de suas obras literárias. Afinal, cada nome ou fato precisa ser aprendido. Parece simples, mas não é.
Nós estamos inseridos numa cultura que tem a mitologia greco-romana em sua base. Mesmo sem maiores estudos na área, um leitor mediano conhece Zeus, Atena ou Poseidon. Talvez conheça esses deuses por seus nomes latinos: Júpiter, Minerva e Netuno.
De qualquer forma, somos acostumados com essa mitologia. Ao lermos textos do mundo clássico logo reconhecemos nomes e contexto. Além disso, há obras tradicionais voltadas para esse universo, como O livro de ouro da mitologia, de Thomas Bulfinch.
Isso não ocorre quando lemos uma teogonia ou cosmologia do universo babilônico. Essa cultura, apesar de ter florescido por milênios, desapareceu durante dois mil anos.
Estudiosos apontam a sobrevivência residual de um mito aqui e outro ali. Vários estudos apontam resquícios da mitologia babilônica na cultura hebraica antiga e nas bases da mitologia grega. De qualquer forma, trata-se de algo fragmentário, que subsistiu em formato oral. Não houve transmissão de uma tradição literária escrita.
Dessa forma, ao entrarmos em contato com a teogonia do universo sumério as coisas são bem mais complicadas. A começar pelos nomes e seus sons e depois pela originalidade da própria narrativa.
É preciso paciência para compreender quem é quem na narrativa e mesmo respirar fundo para ver se realmente entendemos o que ocorre. As teogonias apresentam muitas vezes cenas que não são lógicas em princípio.
Isso ocorre, por exemplo, na mitologia grega: Cronos come seus filhos, mas um deles, Zeus, depois de salvo por sua mãe, retorna, vence o pai e o faz vomitar seus irmãos. Lendo isso pela primeira vez teríamos um estranhamento e leríamos duas vezes para confirmar.
É mais ou menos isso que ocorre com a Epopeia da Criação, pois a sucessão de acontecimentos é demasiado original ou exótica.
Aqui ressalta a importância das notas explicativas do tradutor Jacyntho Lins Brandão. Afinal, para que o poema fosse compreendido por nós simples leitores, era necessário explicar toda uma mitologia exótica.
Assim, essa edição se constiui num belo estudo à disposição do leitor brasileiro. De fato, o poema é relativamente curto, tem 52 páginas, mas o volume todo tem 427 páginas.
EPOPEIA DA CRIAÇÃO
Esse poema trata do nascimento, luta e glória do maior dos deuses do panteão babilônico: Marduk.
De início há dois deuses primordiais, Apsu e Tiámat, que misturam suas águas e geram: Láhmu e Láhamu. Estes geram Ánshar e Kíshar, que depois geram Ánu (o Céu).
Ánu tem também sua descendência, sendo Ea o principal de seus filhos, também chamado Nudímmud. De Ea são gerados os demais deuses.
A proliferação de deuses, porém, acaba com o sossego primordial. Apsu reclama para Támat que não consegue mais dormir e descansar por causa da algazarra. Ela pede então sua eliminação, para que possa voltar a dormir. Támat não aceita inicialmente, mas algo o faz mudar de ideia.
Ea e sua esposa Dámkina geram Marduk. Ánu presenteia o novo deus, seu neto, com quatro ventos, que provocam poeira e onda, isso abala Támat. Apsu e Támat criam então vários monstros que entram em luta contra os deuses.
Para resistirem, os deuses elegem Marduk como seu líder. O jovem deus vence Apsu e a divide em duas partes, com uma ele faz o céu e com outra a terra.
Marduk, assim, se enche de glória e recebe os poderes do demais deuses. O fim do poema apresenta uma lista com os cinquenta nomes de Marduk.

COSMOGONIA OU TEOGONIA?
Vários estudiosos vêm nesse poema uma cosmogonia, uma explicação do surgimento e natureza do universo. Isso ocorre especialmente por conta das comparações com as narrativas de criação do universo presentes no Gênesis.
É tentador buscar numa narrativa antiga babilônica ecos ou fundamentos da tradição hebraica. Mas não é preciso muito esforço para perceber que a Epopeia da Criação é na verdade uma narrativa sobre o nascimento dos deuses, uma teogonia.
No poema, a explicação sobre a criação do universo é secundária. O foco é a genealogia e ascensão de Marduk no panteão dos deuses babilônicos.
Alguns estudos mais recentes encontram na Epopeia da Criação certos paralelismos com a Teogonia, de Hesíodo, no âmbito da mitologia grega. Nesse caso, certos mitos teriam viajado via tradição hitita para a cultura grega sofrendo modificações. A tese, porém, é controversa.
UMA VERSÃO DAS NARRATIVAS SUMÉRIAS DE ORIGEM
Esse poema não é a única versão de uma teogonia na cultura suméria. Há indícios de que várias versões explicativas da criação dos deuses e do universo circulavam entre os povos mesopotâmicos.
A Epopeia da Criação, entretanto, se desvia das tradições cosmogônicas observadas na Mesopotâmia. Por isso, esse poema deve ser visto como uma promoção de Marduk com a finalidade de consagrar sua cidade: Babilônia.
Justamente por causa dessa particularidade, esse texto ajudou a esclarecer vários pontos da história e da cultura babilônica. A partir dele foi possível, inclusive, datar com precisão eventos da históriada região.
POR QUE LER ESSE POEMA?
Imagine-se numa aventura arqueológica. Você terá de descobrir fatos do passado, nomes, localidades e a própria mitologia de um povo desconhecido. É mais ou menos isso que esse texto te convida a fazer.
Quem se encorajar a ler deve ter em mente que se trata muito mais de ler um trabalho de análise crítica do que um poema. Sim, o poema é importante, mas para o compreendermos é necessário se dedicar à leitura atenta das notas do tradutor.
Trata-se, porém, de um trabalho erudito e muito bem organizado, por isso não será um peso ao leitor interessado e inteligente.
BIBLIOGRAFIA
EPOPEIA DA CRIAÇÃO: Enüma elis. Trad. BRANDÃO, Jacyntho Lins. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
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