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A ODISSEIA DE CHRISTOPHER NOLAN

Assisti Odisseia, mesmo adorando a obra de Homero. Valeu a pena?


EXPECTATIVAS

Minhas expectativas eram baixas devido ao diretor e às repercussões na internet. Pior foi o trailer com um guerreiro de capacete e armadura que lembravam o Batman.


Mais importante, a expectativa era baixa também por causa de minha enorme admiração pela obra de Homero.



A EXPERIÊNCIA

Fui com meus filhos e nisso estava grande parte do prazer da ida ao cinema. Como em casa conversamos sobre Homero, gregos e romanos, era quase uma obrigação assistir ao filme.


Afinal, vimos um filme de aventura que, apesar de longo (minha menina até reclamou) foi divertido. A Odisseia é um filme de aventura, com muitas cenas impactantes, violência leve, bons efeitos especiais e narrativa interessante.


Além disso, a presença de Tom Holland agradou as crianças. De modo geral, o maior gostou, a menor achou cansativo. De fato, o filme é longo, quase três horas, mas é realmente muito bem feito.


No final meu filho disse: “o filme foi uma boa propaganda para ler o livro”. Só isso já me parece ser algo bem positivo. Saímos do cinema felizes.


As cenas de tempestade na pequena embarcação foram, para mim, das melhores. Muito bom também Circe transformando os companheiros de Odisseu em porcos. A sequência com o ciclope também foi bem interessante.


Já a cena de enfrentamento dos lestrigões, a meu ver, ficou com as pontas soltas, sem se encaixar perfeitamente na narrativa. Também achei a longa luta de Odisseu contra os pretendentes decepcionante.  Feita aos moldes de antigos filmes de kung-fu ou das lutas ao estilo Kill Bill, ela não combinou.


Enfim, o filme passou no teste de entretenimento. Agora podemos falar de uma questão um pouquinho mais profunda.


ENREDO NO CINEMA E NA LITERATURA

Gosto muito de cinema, mas sem maiores estudos. Por outro lado, adoro literatura e a Ilíada e Odisseia são dos meus livros favoritos. Até já lecionei literatura clássica!


Assim, falo de filmes apenas no sentido de gostei e não gostei. Mas em termos de literatura e do processo de adaptação, daí talvez eu tenha algo a dizer.


O poema épico Odisseia é construído numa série intercalada de narrativas que se desenvolvem em diferentes estágios de espaço-tempo.


O épico se inicia com a telemaquia, a viagem de Telêmaco a Esparta e seu retorno evitando uma emboscada. Há então as narrativas do presente de Odisseu, sua partida da ilha de Calipso e viagem de retorno a Ítaca. Ocorre então um flashback e, entre os feáceos, Odisseu narra o fim da Guerra de Tróia.


Num looping, Odisseu chega a Ítaca e seu etos narrativo se combina com o de Telêmaco. É importante lembrar que cada uma dessas estruturas narrativas é feita de forma muito complexa.


Euricleia, por exemplo, reconhece a cicatriz que Odisseu ganhou numa caçada feita na juventude, que é descrita num flashback. O mesmo recurso ressurge nos diálogos com o profeta Tirésias e outras almas do Hades.


No poema, essas diversas cenas e relações espaciotemporais criam um equilíbrio perfeito. Temos então uma narrativa com praticamente três mil anos cuja técnica empregada ainda hoje espanta.



A ODISSEIA DE CHRISTOPHER NOLAN

É claro que passar uma narrativa assim tão complexa para a linguagem do cinema (ou qualquer outra) não é fácil. A rigor, não é possível criar o mesmo ritmo e a mesma riqueza narrativa num suporte com dinâmicas  tão diferentes.


Nesse sentido, a adaptação da Odisseia por Christopher Nolan, que também é o roteirista, é bem positiva.


No roteiro,  as ações no filme ocorrem em ordem cronológica acompanhando a trajetória de Telêmaco. A telemaquia é, assim como na narrativa original, empregada como linha de progresso da primeira parte da narrativa.


A introdução de Odisseu também se dá com seu cativeiro na ilha de Calipso. Mais uma vez Nolan seguiu a narrativa original. Porém, temos aqui uma primeira alteração. As lembranças de Odisseu estão obliteradas pelo uso do lótus, que a deusa o incentiva a consumir.


Ora, na narrativa original, Odisseu e seus marinheiros desembarcam na Ilha dos Lotófagos. Lá, parte dos marujos se perde em pensamentos vagos ao consumir a flor narcótica. No filme não há espaço para os lotófagos, mas Nolan, elegantemente, faz a referência.


Vários outros detalhes do poema desapareceram para dar maior força à narrativa do filme. Por exemplo, em Homero, Odisseu conversa com Polifemo na ilha dos ciclopes. Surge daí, inclusive, um trocadilho memorável. No filme, o ciclope não fala e é uma besta-fera que vive sozinha na ilha.


Na ilha de Circe, por seu turno, os acontecimentos no filme se dão numa rápida sucessão. Enquanto no poema, Odisseu e seus homens passam lá um ano. Nolan, porém, faz uma das melhores sequências do filme quando a bruxa transforma os marinheiros em porcos.


Pequenas adaptações e supressões como essas servem para dar mais força à narrativa. No cinema, é preciso fazer as sequências se encadearem num ritmo próprio e, a meu ver, Nolan fez escolhas acertadas na adaptação do roteiro.


ADAPTAÇÃO DO DISCURSO GUERREIRO

No período homérico, os povos gregos viviam de pirataria, saques e guerras. Homero, em seu discurso, legitima esse universo de violência. Não podia ser diferente, ele é produto de seu meio.


O poeta, porém, é maior que seu contexto. Sua abordagem é profundamente humana. A guerra, afinal, é uma mazela da humanidade, mas gera reações paradoxais. Ela é heroica de um lado, mas por outro é a pior das catástrofes produzidas pelo ser-humano.


Homero tira partido desse paradoxo. Ele aborda o heroísmo, mas também valores humanos profundos, como o luto, o amor, a amizade, a ira e a gratidão.


Nolan não conseguiu expressar em seu filme toda a profundidade presente em Homero. Mas ele reflete os discursos de nossa época sem ser abusivamente panfletário.


Nesse sentido, merece destaque a sequência da invasão da casa de Circe. Na disputa com Odisseu, a bruxa crítica a ideologia guerreira daqueles homens, sua violência e desumanidade.


O filme aí se distancia do poema e a atitude de transformar os marinheiros em porcos acaba sendo justificada. Não precisava disso, mas não desmerece o filme.


Da mesma forma, a atriz Zendaya faz a deusa Atena, cujo rosto é o mesmo da sacerdotisa morta na invasão de Troia. Esse detalhe tem um sentido maior. Ele reforça o tema da maldade exagerada dos gregos ao invadir a cidade inimiga. Essa é mais uma costura interessante na narrativa.


UM PROBLEMA DE CARÁTER

Nos poemas homéricos, inclusive na Ilíada, Odisseu é um malandro, espertalhão, capaz de mentir e jurar em falso, um mau-caráter.


O uso de Matt Damon, porém, reforça um certo “bom-mocismo” do personagem. Assim, perde-se um pouco dessa característica meio negativa de Odisseu. Ele até sofre certos problemas de consciência, algo distante dos heróiS dos poemas homéricos.


Por outro lado, os marinheiros percebem o mau-caratismo do líder e até iniciam um motim. Isso serve para dar uma equilibrada nas coisas. Ao seu modo, Nolan dá o recado, mas a mim o personagem não convenceu totalmente.


ANACRONISMO

Há um problema mais incômodo no filme, o anacronismo. O mais gritante é quando Nolan faz Odisseu falar em “fim da Era do Bronze” ao se referir aos povos do mar.


Esses tais povos do mar realmente existiram e estão no contexto da crise global que ocorreu ao fim da Era do Bronze. Entretanto, é claro que Homero ou qualquer outro grego da antiguidade jamais se referiria a seu próprio tempo como Era do Bronze.


Outro aspecto anacrônico é a repetição por Telêmaco da fórmula “Trata o próximo como a ti mesmo”. Esse é uma adaptação do preceito de Cristo: “Ama o próximo como a ti mesmo”.


Havia sim uma forte cultura de hospitalidade entre os gregos. Trata-se de uma tradição que tinha sentido prático e moldava as relações interpessoais. No filme, Nolan lançou mão dessa fórmula adaptada para transmitir algo do costume grego ao público. Talvez houvesse outras possibilidades de fazer isso, essa ficou estranha.


AFINAL, O FILME VALEU A PENA?

Sim!


O filme é entretenimento popular. Não dava para esperar uma adaptação erudita, mas Christopher Nolan consegue dar conta do recado. Ele costura muito bem as referências e faz um filme equilibrado. Há deslizes aqui e ali, mas é afinal muito bem feito.


Para completar, aqueles que nunca leram o poema de Homero podem agora se sentir encorajados. Talvez tenhamos mais leitores da Ilíada e Odisseia por causa desse filme. Isso seria maravilhoso.


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