A EPOPEIA DE GILGAMESH
Considerações sobre a mais recente tradução brasileira d’A epopeia de Gilgámesh.
Para ser breve, a edição é realmente muito bem trabalhada. A introdução e as notas tornam a experiência interessante e enriquecedora. Mas se trata de obra fragmentária e isso pode tornar a leitura um pouco decepcionante aos desavisados.
Vou explicar melhor.

OBRA FRAGMENTÁRIA
Eu tinha enorme curiosidade sobre esse texto e muitas expectativas em relação à tradução. Afinal, gosto muito de literatura antiga, Homero, por exemplo, é um dos meus autores favoritos. Nada mais natural do que buscar outra epopeia antiga! Mas bem aí surge meu incômodo.
A Ilíada e a Odisseia têm seus textos estabelecidos há muito tempo e encontram-se em estado integral, o que não ocorre com a Epopeia de Gilgamesh.
Esse clássico da literatura acádia é uma obra fragmentária. As tabuinhas de argila em que o poema foi registrado e que sobreviveram a, literalmente, milhares de anos revelam o enredo de maneira incompleta. Assim, o texto estabelecido desta epopeia tem muitas lacunas, inculsive de partes importantes da narrativa.
Essa é uma situação complicada quando comparada à dos textos homéricos, pois podemos ler a Ilíada e a Odisseia de cabo a rabo. Não há lacunas na narrativa e os heróis homéricos são apresentados em todo seu vigor e completude. Além disso, o colorido, a dramaticidade e a ação das cenas se revelam por inteiro.
A coisa é muito diferente com o que chegou até nós da Epopeia de Gilgamesh. De repente, em momentos de maior tensão surge uma lacuna ou um diálogo central aparece fragmentado. Há poucos trechos relativamente bem preservados e a leitura fica desencadeada.
Isso se deve à longinqua história envolvendo esses escritos, cuja sobrevivência se deve ao suporte utilizado. O texto original, em acádio, foi registrado em tabuinhas de argila com escrita cuneiforme. Essas tabuinhas permitiram que o texto chegasse até nós, apesar de serem relativamente frágeis.
Muitas dessas tabuinhas se quebraram, deixando lacunas que só vão se resolvendo com novas descobertas arqueológicas. Dessa forma, o texto hoje estabelecido é uma versão provisória. A qualquer momento pode surgir uma nova tabuinha que pode alterar a compreensão atual da obra.
O texto se encontra fragmentado, mas é totalmente compreensível. Felizmente, essa edição tem um extraordinário conjunto de notas explicativas.
O MATERIAL DE APOIO DESSA TRADUÇÃO É EXCELENTE
Essa edição é muito bem organizada, apresenta excelente introdução e um imprescindível conjunto de notas de fim.
O tradutor utilizou para seu trabalho a mais recente edição de Andrew George, da Universidade de Oxford. Esse pesquisador se baseia num conjunto de tabuinhas que levam a assinatura de Sin-léqi-unnínni, o “Exorcista”; este teria sido o compilador das diferentes versões que circulavam por volta de 1300 a.C.
Apesar de se tratar de um dos conjuntos mais bem preservados e completos, essa versão não consegue resolver várias lacunas. Porém, registros em hitita e ainda em outras línguas que utilizaram o cuneiforme dão pistas do que poderia fazer parte da versão do “Exorcista”.
Essa tradução toma o cuidado de apresentar essas versões, quando possível e necessário, nas notas, o que ajuda na leitura e compreensão da narrativa.
Merece destaque que a obra é dividida em “tabuinhas” ao invés de capítulos, são 12 no total. Cada “tabuinha” é organizada com subtítulos relativos às cenas específicas narradas. Os versos, por sua vez, são numerados. Esses cuidados se revelam muito úteis na leitura feita com consultas às notas de fim.
Essas notas são fundamentais. Fiz a experiência de ler a primeira tabuinha sem recorrer às notas, não deu certo. Ressalte-se que as notas são claras e objetivas, esclarecendo pontos duvidosos do texto ou o contexto histórico e cultural.
A meu ver, porém, a introdução é uma das melhores partes dessa edição. Trata-se de um estudo completo e erudito sobre a obra.
A introdução aborda o contexto de descoberta arqueológica recente dos textos relativos a Gilgámesh. Também relaciona a história antiga do Oriente Médio às culturas que tiveram no cuneiforme sua expressão escrita.
É importante que o leitor se dedique a essa introdução antes da leitura da narrativa. Os subsídios ali presentes tornam a leitura mais proveitosa.
UMA TRADUÇÃO A SER COMEMORADA
É preciso louvar a iniciativa do tradutor Jacyntho Lins Brandão. Ele é professor de letras clássicas, há tempos leciona língua e literatura grega antiga, mas não é acomodado.
Ele se dedicou ao estudo de outra língua morta, o acádio, e premiou os brasileiros com essa importante tradução da Epopeia de Gilgamesh diretamente do original.
Brandão teve de superar a objetividade científica para realizar uma tradução com apelo literário. Isso tudo em relação a uma língua morta, muito distante da nossa e com uma estrutura de versificação muito diferente.
Os versos, em certos momentos, não têm muita força literária, isso talvez se deva em parte às limitações da transcrição do cuneiforme para o alfabeto latino e depois à tradução. Esse processo é bem explicado na introdução.
De qualquer forma, esses são pequenos percalços em comparação à iniciativa e à oportunidade dada a nós brasileiros de entrar em contato com um documento tão antigo.
Dito isso, há de se reconhecer o grande trabalho de estudo e apresentação clara e objetiva da literatura antiga acádia, suméria, babilônica e hitita. Sim, todas essas culturas se cruzam no processo de construção e transmissão dessa epopeia.
A EPOPEIA DE GILGAMESH
Esse é o texto literário mais antigo que chegou até nós. Versões orais do poema circulavam lá em torno de 2600 a.C. Entretanto, a tabuinha mais antiga encontrada com trechos dessa narrativa foi feita por volta do século XIX a.C.
Com o surgimento da escrita cuneiforme, o poema foi registrado em tabuinhas de argila. O registro circulou primeiramente em acádio. Há ainda versões em outras línguas, de povos um pouco mais distantes, como o hitita.
Dessa forma, o tesouro literário acádio acabou por sobreviver, com alterações, é claro, ao longo de quase três mil anos.
Esse poema foi a principal referência cultural para uma região que se estendia da Pérsia até o Egito. Gilgamesh é parte de culturas diversas ao longo dos séculos, como acádia, elamita, hurrita, hitita, palaíta, luvita, urartiana, ugarítica e persa antiga, além de suméria e babilônica, é claro.
Assim, dentro de um ambiente multicultural e multiétnico, a Epopeia de Gilgámesh foi elemento cultural central para os povos que se relacionaram com a escrita cuneiforme.
O cuneiforme surgiu por volta de 3200 a.C. e desapareceu lá pelo século I a.C. Enquanto foi escrita de uso e de cultura, o universo de referências ligado a Gilgámesh perdurou. Mas essa escrita desapareceu e junto foi-se a cultura a ela relacionada. Houve então um esquecimento que durou mais de 2000 mil anos.
Apenas em 1872, o assiriólogo inglês George Smith leu em uma conferência o trecho da Epopéia de Gilgámesh que narra um dilúvio. A partir dessa época essa obra voltou, aos poucos, a ser recuperada.

Fragmento de tabuinha com texto da Epopeia de Gilgámesh, séculos 14-13 a.C. Staatliche Museen von Berlin. (Fonte)
POR QUE LER A EPOPEIA DE GILGÁMESH?
Nos últimos 150 anos, a Epopeia de Gilgámesh ganhou seu lugar definitivo na história da literatura universal.
Vários estudos encontraram nesse poema a origem de muitos mitos e narrativas posteriores. A mais famosa é a do dilúvio, que também aparece no Gênesis, que por sua vez foi escrito por volta do ano 800 a.C. Há ainda influência dessa narrativa na mitologia grega. Enfim, esse é um texto seminal para culturas do Oriente e Ocidente.
A leitura da Epopeia de Gilgámesh abre novas perspectivas. É a chance de entrar em contato com uma cultura de um povo oriental da Era do Bronze. Além disso, com essa edição o leitor acessa um trabalho acadêmico bem feito, sério e erudito.
Há um outro aspecto relacionado à leitura dessa obra: a conquista pessoal. Lendo atentamente, anotando, você terá entrado em contato com uma cultura antiga, com heróis imortais.
Isso não é pouco. Como já disse Ítalo Calvino: “...quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, informações, de leituras, de imaginações?”
BIBLIOGRAFIA
SIN-LÉQI-UNNÍNNI. Ele que o abismo viu: epopeia de Gilgámesh. Trad. do acádio: BRANDÃO, Jacyntho Lins. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
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