VIAGENS DE MARCO POLO
Uma viagem que durou 24 anos gerou um dos relatos mais incríveis da história.
IL MILIONE
O livro conhecido atualmente como Viagens de Marco Polo teve vários outros nomes ao longo do tempo. Na Itália, ficou mais conhecido como lI milione, por causa de suas descrições superlativas das riquezas e maravilhas do Oriente.
A obra é um relato detalhado da viagem de vinte e quatro anos que Marco Polo realizou pelo Oriente (entre 1271 e 1295). Há inclusive detalhes da vida na corte do imperador mongol Kublai Khan. Isso foi possível porque o mercador veneziano passou alguns anos nessa corte e manteve amizade com o governante.
Após retornar da Ásia, Marco Polo foi preso durante as Guerras Genovesas no final do século XIII. Na prisão em Gênova, ele ditou suas experiências de viagem ao escritor Rusticiano (ou Rustichello) de Pisa, autor de romances de cavalaria.
Esse escritor percebeu a importância dos relatos do famoso mercador. Ele recheou, então, suas páginas com elementos literários, alguma ficção e imagens hiperbólicas. O resultado foi um grande sucesso.

Frontispício do Livre des merveilles et autres récits de voyages et de textes sur l’Orient, livro com iluminuras produzido na França entre 1410 e 1412 contendo os relatos de Marco Polo e outros autores. (fonte)
VIAGENS DE MARCO POLO
A obra foi escrita em franco-venetiano, uma língua literária da época, que mistura o francês com dialetos do norte da Itália. Com o sucesso da pblicação, muitos tradutores, adaptadores e impostores publicaram suas versões. Isso dificulta até hoje a fixação do texto original.
A obra ajudou a divulgar o Oriente entre os europeus. Além disso, expandiu os conhecimentos gerais sobre geografia, cultura e comércio asiáticos. Por isso, o relato foi objeto de debates e controvérsias relativos a suas imprecisões e exageros.
Rusticiano de Pisa ouviu o relato de Marco Polo e fez seus registros. Talvez isso explique o uso de terceira pessoa na obra:
[...] Esses três reis magos chamavam-se Baltasar, Melchior e Gaspar. Marco interessou-se pela vida deles, e interrogou diversas pessoas que apenas souberam responder que tinham sido antigos reis e estavam ali sepultados havia longuíssimos anos. (p. 22)
Não há, entretanto, padronização e o texto flutua em usos de primeira pessoa do plural (nós) e terceira pessoa (ele, Marco Polo). Isso pode ser resultado da atual dificuldade de fixação do texto.
De qualquer forma, é interessante notar que Cristóvão Colombo usou terceira pessoa em seus diários de bordo e relatos. Em seu caso, esse era um costume da época. Talvez fosse algo herdado justamente do relato de Marco Polo.
NARRATIVA VIBRANTE
O foco do relato de Marco polo são os aspectos geográficos e culturais dos locais que visita. Juntos das descrições de cidades e costumes há narrativas da história recente do local, de alguma batalha ou fato curioso. Isso dá maior dinâmica à leitura.
O narrador está sempre em busca do exótico e pitoresco. Por isso, a todo momento, surgem trechos que explicam a mudança de foco:
“Ingiu é uma cidade grande e importante, mas como nela não há nada digno de nota, vamos para Unghin.” (p. 107)
EXAGEROS E FATOS HISTÓRICOS
As descrições presentes nas Viagens de Marco Polo estão cheias de exageros. Eles refletem o deslumbramento do europeu, mas podem ser tanto de Marco Polo quanto de Rusticiano. Afinal, o escritor poderia estar em busca de maior grandiosidade ao relato.
Como resultado, em alguns momentos o hiperbolismo raia o ridículo:
Como nas margens desse rio [Quian ou Azul] há muitas cidades, as mercadorias que seguem por ele são em muito maior quantidade do que as que transitam em todos os outros rios critãos e ainda por todos os seus mares. Eu já vi neste rio, de uma só vez, cinco mil navios mercantes! (p. 105)
Ou ainda:
Estes navios levam uma tripulação de duzentos marinheiros, e podem transportar cinco mil cestas de pimenta e seis mil de tâmaras. Vogam com remos impulsionados por quatro marinheiros cada um, e cada navio reboca ainda um barco, carregado de mil cestas de pimenta, uma tripulação de quarenta marinheiros e várias baleeiras para pescar. (p. 116)
Esse tipo de exagero fez com que a obra se tornasse alvo de críticas e descrétido. Mas o relato apresenta fatos, hoje comprováveis, que podem ter soado como pura imaginação para os europeus da Idade Média.
Marco Polo descreve, por exemplo, o uso do papel moeda no império de Kublai Khan. Essa inovação só seria implementada na Europa muitos séculos mais tarde.
Outra invenção sensacional que demoraria séculos para ser adotada no Ocidente é o “correio” do Grande Khan. Esse sistema contava com milhares de cavalos e cavaleiros que se revezam ao longo de todo o império. Havia assim comunicação rápida entre os mais distantes pontos do território com a capital.
Marco Polo menciona ainda o uso de “pedras que ardem”. A novidade incrível era tão somente o carvão mineral, que já era usado na China naquela época.

Representação de Marco Polo na cidade armênia de Ayas (atual Turquia), presente no Livre des merveilles et autres récits de voyages et de textes sur l’Orient, século XV. (fonte)
O IMAGINÁRIO MEDIEVAL SOBRE O ORIENTE
Marco Polo e Rusticiano eram homens da Idade Média e tudo o que viam ou ouviam passava pela mediação de ideias de seu tempo.
Essa cosmovisão medieval explica as curiosidades exóticas descritas no livro, como galinhas peludas, pessoas com longos rabos e fantasmas dos desertos. Na narrativa de Marco Polo, esse universo se mistura com observações concretas.
Justamente essa extraordinária conjugação de realismo e, digamos, hiperrealismo faz desse relato uma das peças mais extraordinárias da literatura medieval.
Por exemplo, na Idade Média circulava na Europa a lenda de que o apóstolo São Tomé teria ido pregar o Evangelho na Índia e lá pereceu. Marco Polo, retomando essa história, rrelata a presença dos restos mortais do apóstolo na região de Maabar [Malabar].
Mais interessante é o fato de os homens da casta Ghavi simplesmente não poderem entrar no mausoléu do Santo:
Foram os ancestrais desta casta Ghavi, que come carne de boi, que supliciaram São Tomé, o apóstolo; por isso ninguém pode, ainda hoje, entrar no lugar onde está sepultado o corpo do santo. Mesmo que vinte homens fizessem força, empurrando um deles para fazê-lo entrar naquele recinto, nada conseguiriam pela virtude do santo corpo. (p. 128-129)
DESCRIÇÃO DA ÍNDIA
Viagens de Marco Polo não é apenas um relato fantástico. Na verdade, muita coisa observada e descrita tem fundamento e mesmo comprovação. Por outro lado, alguns julgamentos serviram para construir preconceitos duráveis entre os Europeus.
Na Índia, Marco Polo descreve, indiretamente, o sistemas de castas. Ele destaca também a superstição da população e aborda a filosofia indiana, como o hinduísmo e o ioga. Mas em alguns momentos a visão medieval faz a análise ganhar cores inesperadas.
Isso ocorre, por exemplo, na descrição da prática de esposas se jogarem no fogo da cremação do finado esposo como um sinal de fidelidade (cf. p. 128). Também na aparente ausência de regras nos mares indianos:
Esse povo não considera o furto um pecado, e esta crença é geral em todas as províncias da Índia. Todo navio que passar por estas costas é saqueado. (p. 139)
Essas descrições da Índia construíram o imaginário dos futuros navegantes europeus. Assim, por exemplo, os indianos retratados por Luís de Camões em Os Lusíadas refletem certa influência do relato de Marco Polo.
UMA DAS NARRATIVAS MAIS IMPORTANTES DE TODOS OS TEMPOS
Viagens de Marco Polo é um marco no desenvolvimento da imaginação fantástica nas crônicas medievais. Mas é principalmente uma das obras de maior influência no pensamento renascentista.
No contexto do Renascimento, sem dúvida alguma, um dos acontecimentos mais extraordinários foi a descoberta do Novo Mundo. E um dos elementos centrais desse processo foi Cristóvão Colombo.
O navegador genovês confirma em seus textos de viagem que Marco Polo foi uma de suas principais influências.
No plano literário, Camões é um dos principais autores renascentistas influenciado pelasViagens de Marco Polo. Mas a obra sobreviveu muito bem ao tempo, sendo referência em vários momentos históricos.
No século XX, a mistura entre elementos factuais e maravilhosos da narrativa a transformou numa referência óbvia para o realismo fantástico. O relato medieval chegou a ser visto como um inesperado ancestral do movimento literário encabeçado por Gabriel Garcia Marques.
Nessa linha, o italiano Ítalo Calvino produziu As cidades invisíveis, numa referência direta à narrativa de Marco Polo.
Outro grande mestre, Jorge Luís Borges, dedicou vários ensaios e contos ao universo imaginário criado por Viagens de Marco Polo.
Assim, a narrativa medieval continua sua trajetória no mundo das ideias, definitivamente inserida na tradição literária ocidental.
REFERÊNCIA
POLO, Marco. Viagens de Marco Polo (Il Milione). Trad. MEIRA, N. São Paulo: Clube do Livro, 1989.
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Excelente texto: não consegui para de ler! Vai escrever bem assim lá...no Oriente!!
Olá, Professor Cleverson Ainda não li esse livro. Ao ler o seu texto, fiquei com vontade de ler. Quem me falava muito de Marco Polo era o meu pai. Nunca soube se ele leu o livro. Ele era um bom leitor. Vou tentar comprar o livro.