OS TEXTOS DE CRISTÓVÃO COLOMBO
- Ribas Carneiro
- há 1 dia
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Cristóvão Colombo é um personagem histórico dos mais controversos, mas a melhor forma de conhecê-lo é por meio de seus documentos de viagem.

Retrato de homem, dito ser Cristovão Colombo, por Sebastião del Piombo, 1519.
OS REGISTROS DE VIAGENS DE CRISTÓVÃO COLOMBO
Existem vários documentos históricos importantes relacionados às viagens de descobrimento de Cristóvão Colombo. Entre os originais mais importantes estão várias de suas cartas.
A “Carta de Colombo para Luis de Santangel”, de 1493, foi redigida após sua primeira viagem para aquele que era um de seus principais financiadores. Nela, ele descreve suas descobertas e os eventos da viagem. Essa carta foi logo impressa e amplamente distribuída, contribuindo para a divulgação da descoberta do Novo Mundo.
Várias outras cartas foram enviadas aos Reis Católicos de Espanha por Colombo entre 1493 e 1504. Nelas, combinam-se relatos, análises da situação e pedidos de apoio para as expedições. São importantes documentos sobre os empreendimentos exploratórios e as reivindicações políticas de Colombo.
O documento mais famoso, porém, é o chamado "Diário de bordo", que relata pormenorizadamente a primeira viagem. O diário original não sobreviveu, mas há transcrições e versões, sendo a mais conhecida a de Bartolomeu de las Casas. Nesse relato, estão registrados os primeiros contatos com a nova terra.

Mapa de Colombo, Lisboa, 1490. Teria sido feito numa oficina de Lisboa por Colombo e um certo Bartolomeu, mas não é possível assegurar a autoria.
RIQUEZA DOCUMENTAL
Temos assim, um grande conjunto de documentos relacionados a Cristóvão Colombo e suas viagens. Em torno deles há ainda muita imprecisão e discussões sobre autenticidade. Hoje em dia, porém, pode-se dizer que há um grande corpus qualificado entre todos esses documentos.
Trata-se mesmo de muita coisa. Para se ter uma ideia, em 1892, a Real Academia de História Espanhola publicou uma Biblioteca Colombiana. Essa é uma obra monumental, dividida em três grandes volumes.
Soma-se a esse conjunto documental, os inúmeros estudos, investigações e análises realizados ao longo dos anos. Até hoje, o tema das viagens de Cristóvão Colombo atrai muitos estudiosos.
Para o leitor curioso, entre todos os textos relacionados a Colombo, talvez a leitura mais interessante seja o diário da primeira viagem. Nele, são descritos os desafios enfrentados durante a navegação, como as tempestades e a ansiedade da tripulação. Fundamental, é claro, é o registro da descoberta de terras desconhecidas.
Em 12 de outubro de 1492, após mais de um mês de navegação, a tripulação finalmente avistou uma ilha. No diário é descrita a paisagem, a flora e a fauna do local, além de muitos detalhes do encontro com os nativos.
Para o leitor brasileiro e português é interessante comparar as reações de Cristovão Colombo e Pero Vaz de Caminha. Em ambos, pode-se identificar o maravilhamento com aquelas paragens e pessoas nuas. Em Colombo há ainda uma clara associação com o ideal de paraíso bíblico.
Colombo, porém, passa mais tempo entre os nativos e, ao contrário de Caminha, logo assume uma postura de genuíno conquistador. Rapidamente, ele enxerga naqueles nativos uma forma de explorar a região em busca de ouro.
Sim, Colombo também percebe a ausência de uma religião estruturada e o potencial de catequização do povo. Entretanto, comparativamente, ele tem menor simpatia pelos indígenas do que Pero Vaz de Caminha.
A edição desse diário de bordo é póstuma, elaborada por Bartolomeu de las Casas. Há controvérsias ao redor da obra, mesmo assim é uma fonte valiosa de informações sobre a descoberta do Novo Mundo.
Curiosamente, o diário é redigido em terceira pessoa. Não se sabe ao certo a razão disso, mas há hipóteses. Havia, na época, entre pessoas em posição de autoridade, o costume de falarem de si mesmas em terceira pessoa. Colombo poderia ter adotado essa prática.
Outra razão possível é que Las Casas pretendia criar um relato objetivo e imparcial das viagens de Colombo; assim, usando terceira pessoa, ele poderia retratar os eventos de forma mais distante, conferindo um tom mais formal e histórico ao relato.
As informações relativas às outras viagens de Cristóvão Colombo são oriundas de suas cartas. Trata-se de textos cuja leitura é também muito proveitosa. Elas não têm aquela organização de diário, mas revelam um escritor cheio de estilo. As imagens ricas, cheias de maravilhamento são pura literatura.

Gravura do século V retratando os cinocéfalos, da edição francesa do Livro das Maravilhas.
UM UNIVERSO MEDIEVAL ENCONTRA O NOVO MUNDO
O diário de bordo e as cartas de Cristóvão Colombo revelam a matriz intelectual daquele homem. Ele é um representante do Renascimento europeu do século XV. Seus escritos, porém, revelam uma herança medieval ainda muito presente. Uma referência particularmente importante para ele é o livro de Marco Polo, publicado no século XIII.
Obviamente, Colombo é um homem à frente de seu tempo ao conceber que a terra é redonda. Mais importante ainda, ele tem a iniciativa de tirar partido desse conhecimento. Mas ao mesmo tempo ele revela conceitos e crenças medievais. Por exemplo, no diário da primeira viagem ele registra o avistamento de sereias:
Ontem, quando o Almirante [Colombo] ia ao Rio del Oro, diz que viu três sereias que saltaram bem alto, acima do mar, mas não eram tão bonitas como pintam, e que, de certo modo, tinham cara de homem.
Talvez Colombo tivesse visto focas, mas sendo marinheiro experiente, por que se confundiria? Como explicar esse avistamento?
Em outro momento, ele menciona em seu relato os cinocéfalos, homens com cabeça de cachorro, que teriam sido descritos pelos índios.
Ele ainda entende que os nativos descreveram uma ilha habitada apenas por mulheres guerreiras, as míticas amazonas da mitologia greco-romana. Essa informação o deixa muito curioso e ele lamenta não ter tido a chance de achar a tal ilha.
Paradoxalmente, ele desconfia quando os índios informam que havia canibais numa determinada região. Justamente essa informação se comprovaria verdadeira.
Chama a atenção ainda nos relatos o quanto os europeus queriam descobrir ouro. Esse desejo irrefreável influencia todas as interações entre eles e os nativos. Em meio às dificuldades de comunicação, em várias ocasiões, os espanhóis concluíam que os índios tratavam do mesmo assunto que eles: ouro. Um caso notável de superinterpretações.
OS TEXTOS DE CRISTÓVÃO COLOMBO
No Brasil, a L&PM publica, desde 1998, um volume de bolso intitulado Diários da descoberta da América. A organização dessa edição não é muito clara. Há um texto inicial de apoio, que contextualiza os escritos de Colombo no início das grandes navegações.
O primeiro texto a aparecer é justamente uma tradução do diário da primeira viagem, mas não há indicação de ter sido feita a partir da edição de Bartolomeu de las Casas. Na verdade, a apresentação indica que se traduziu as linhas "escritas pelo mesmo homem que empunhou o leme da Santa Maria".
Pois bem, não existe tal diário escrito de próprio punho por Colombo. Nada disso é esclarecido no volume.
Apesar do título do volume, depois do "primeiro diário" o que se segue são as cartas enviadas aos Reis Católicos em três diferentes ocasiões. Finalmente, o último texto é o testamento de Colombo.
O conjunto, assim, não é exatamente de diários, mas de textos relativos às viagens de descobrimento de Cristóvão Colombo. É claro que o título utilizado tem apelo, mas não reflete o conjunto editado. Melhor seria se apoiar em algumas edições espanholas e intitular o volume como "Cristóvão Colombo: as quatro viagens e seu testamento".
Além disso, faltam informações relativas à natureza dos textos. As apresentações introdutórias para cada texto servem apenas para contextualizá-los em relação à vida de Colombo. Faltam dados sobre os próprios textos, sua produção e circulação.
Enfim, ao estudioso do assunto, essa edição não será de grande auxílio. Nesse caso, seria necessário recorrer às edições críticas espanholas. Pelo menos, há indicações bibliográficas valiosas ao final do volume da L&PM.
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