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A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

A Carta de Pero Vaz de Caminha é um registro histórico e uma obra literária das mais extraordinárias. Duvida?


Página da Carta de Pero Vaz de Caminha, Vera Cruz 1o. de maio de 1500.

Página da Carta de Pero Vaz de Caminha, Vera Cruz, 1o. de maio de 1500. (fonte)

A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

Pero Vaz de Caminha foi indicado escrivão para a feitoria portuguesa de Calicute, na Índia. Infelizmente, ele pereceu na viagem, mas entrou para a história graças a um único texto seu.


Sua carta indica local e data: Vera Cruz, 1º. de maio. Vera Cruz é a denominação dada por Pedro Álvares Cabral à terras onde aportou. A data é do retorno a Portugal da caravela de mantimentos da frota, carregando vários documentos relativos ao "achamento".


A carta de Caminha é um relato pormenorizado do encontro dos portugueses com os índígenas. Trata-se do testemunho de um fato histórico que alteraria a vida dos dois lados do Atlântico.


Fica claro, logo de início, que o foco de Caminha é o encontro com os nativos. O que se segue então é uma narração deslumbrante, tanto histórica, quanto literariamente.


Os marinheiros encontraram os nativos na praia, tentaram se comunicar com eles e acabaram festejando todos juntos. A visão de Caminha é de completa simpatia e maravilhamento em relação ao povo que via. Suas observações se tornaram antológicas:

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.”

Os portugueses convidaram dois “homens da terra” para a nau do capitão. Aquilo era o encontro “oficial” de dois mundos e Caminha é sua testemunha. A narrativa é em tudo encantadora, tanto pela linguagem quanto pelo desenrolar dos acontecimentos.

“[Os dois índios] Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém, um deles pôs o olho no colar do Capitão, e começou a acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para o castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se também houvesse prata.”

Os portugueses compreendiam a comunicação gestual como queriam. Caminha reconhece que a interpretação dos gestos e ações dos índios era falha quando um nativo pegou um colar português:

“Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.”

ENCONTRO DE DOIS MUNDOS

Os portugueses ficam por aquelas praias cerca de dez dias. O espírito de cordialidade, harmonia e concordância entre índios e europeus perdura todo o tempo.


Os portugueses mostram-se amistosos com os índios, trocam presentes e chegam a se misturar em convivência alegre. Cabral consulta os capitães sobre tomar por força dois daqueles “homens para os mandar a Vossa Alteza”. Em assembleia, decidiram que não, o melhor seria deixar lá dois degredados.


Enquanto permaneceram por ali, houve várias saídas para a praia, encontros com os nativos, trocas de presentes e curiosidade geral. Apesar de não se entenderem pela linguagem, europeus e indígenas interagem animadamente:

“Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que lhes se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.”

O retrato é vívido. Há festança improvisada e alegria, mas de repente algo fazia os indígenas fugirem sem explicação. A “esquiveza” é um traço que lembra Caminha dos pequenos animais que se põem a brincar, mas repentinamente fogem. O escrivão notou isso em outros momentos, como quando dois índios visitaram a nau capitânia:

“Os outros dois, que o capitão teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isto andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser.

Caminha se deslumbra e vê aquele lugar como um paraíso na Terra, com aquela gente tão bem feita. Mais adiante ele reforça a descrição das qualidades da região "uma terra em que se plantando tudo dá".


Com o passar dos dias a relação se intensifica, Caminha conta tudo em detalhes. Os retratos e as narrativas revelam a curiosidade e interesse do autor pelos indígenas. Não há na carta a mínima intenção de ridicularizar ou qualquer sentimento de superioridade em relação aos nativos.


Quando da missa rezada junto dos índios, Caminha nota que eles imitavam os europeus ao ajoelhar e levantar. Sem encontrar sinal de idolatria entre os indígenas, ele julga que ao rei caberia salvar as almas daquela gente.


Deve-se ressaltar que a preocupação evangelizadora em Caminha não tem qualquer sentido de exploração ou dominação. Ela é fruto da percepção da humanidade naquele povo e do desejo de querer seu bem. Como cristão, para Caminha, a salvação e a glorificação das pessoas são alcançadas com a conversão a Deus.


A Carta aponta para uma possível convivência respeitosa entre povos diferentes. Infelizmente a história tomaria outro rumo. Mas em Caminha há a mesma preocupação humanista de outros europeus, como Cabeza de Vaca, São José de Anchieta e Padre Vieira.


Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500 – Oscar Pereira da Silva (1865-1939)

Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500 – Oscar Pereira da Silva (1865-1939) - Museu Histórico do Rio de Janeiro. Pintura de 1904 a partir de um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha. (fonte)


A HISTÓRIA DA CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA A Carta de Pero Vaz de Caminha foi enviada para Portugal pela nau dos mantimentos, junto de várias outras. Ela sobreviveria ao autor e às agruras do tempo (inclusive ao Terremoto de Lisboa, de 1755).


Ficou desaparecida por séculos, sendo descoberta apenas em 1773, nos arquivos da Torre do Tombo, por José de Seabra da Silva.

A carta original é constituída de sete folhas de papel divididas em quatro. São ao todo vinte e sete páginas de texto e uma de endereço. O documento está preservado e pode ser visto no site da Torre do Tombo.

A primeira edição da carta foi publicada apenas em 1817, sob a coordenação do Padre Manuel Aires de Casal. Trata-se de edição censurada, com supressão da descrição da nudez das índias.

Grandes estudiosos, como Jaime Cortesão, Antônio Baião e Carolina Michaëlis de Vasconcelos se debruçaram sobre esse documento. Graças ao esforço conjunto, hoje há vários fac-símiles, transcrições e até edições atualizadas e anotadas. Estas são muito importantes, pois a linguagem quinhentista original é muito distante da atual.

A Carta de Pero Vaz de Caminha é um dos mais originais e belos textos da língua portuguesa. Por isso, é reconhecida como uma importante obra de arte literária, a primeira do Brasil.


Trata-se de um texto curto, que se lê rapidamente. Experimente a versão atualizada da Biblioteca Nacional. Infelizmente não tem notas de rodapé, algo importante nesse tipo de texto. Mas outras edições são fáceis de encontrar em qualquer biblioteca. Há inclusive uma adaptação de Rubem Braga, muito elogiada, bem comum também.


HISTÓRIA O 22 de Abril de 1500 é tido como o dia do “Descobrimento do Brasil”. Porém, hoje, é ponto pacífico que a esquadra de Pedro Álvares Cabral não foi a primeira a aportar por aqui.

Sabe-se que o território foi visitado antes por duas expedições espanholas, a de Vicente Pinzón e a de Diego de Lepe. Eventualmente, até portugueses podem ter estado antes na região.


Além disso, deve-se considerar que o Tratado de Tordesilhas foi assinado em 1494. O governo português jamais assinaria um acordo desses sem informações confiáveis.

Tendo isso em mente, parece claro que a viagem de Cabral tinha o objetivo de tornar pública a posse daquelas terras.

É importante lembrar que Vasco da Gama já tinha encontrado o caminho para as Índias. A Pedro Álvares Cabral cabia ir lá construir uma feitoria. No entanto, o capitão se dirige ao oeste, fora da rota recém-descoberta, e aporta onde hoje é o sul da Bahia.


Os registros demonstram que não houve tempestade, nem perda de rumo. Cabral seguiu seguro uma rota que o levava para oeste. Além disso, ao aportar naquelas terras, foram produzidas inúmeras correspondências para o Rei D. Manuel I. Escreveram capitães, emissários e cronistas. Houve ainda várias cartas dos marinheiros para seus familiares.

Uma das naus da frota retornou , levando essas correspondências.


De todas as cartas enviadas daquele ponto a Portugal restaram apenas a de Pero Vaz de Caminha e a de Mestre João Faras. O Mestre João era o médico real a bordo da nau capitânia e astrônomo. Sua carta é uma curta descrição astronômica e geográfica.

Um terceiro documento foi produzido, a Relação do Piloto Anônimo, que só chegou à Europa quando a expedição retornou da viagem à Índia.

Assim, são três os documentos que registram o Descobrimento. Mas a Carta de Pero Vaz de Caminha tem qualidades estéticas que tornam, seguramente, uma pequena joia literária. Dessa forma, o Brasil talvez seja o único país do mundo que tem como “certidão de nascimento” um texto literário.


Primeira missa no Brasil (1860) - Victor Meireles (1832-1903).

Primeira missa no Brasil (1860) - Victor Meireles (1832-1903). (fonte)

UM NOVO CAMPO DE ESTUDOS E REFERÊNCIAS

A descoberta da Carta de Pero Vaz de Caminha e suas reedições fomentaram novos estudos em relação ao Descobrimento.


Nas artes surgiu uma iconografia ligada ao primeiro encontro com os índios, ao desembarque de Cabral e à primeira missa no Brasil. Na literatura, a Carta de Pero Vaz de Caminha se tornou referência para o Movimento Pau-Brasil.


O valor histórico da Carta de Pero Vaz de Caminha e de outros documentos de cronistas, religiosos e exploradores portugueses é imenso. A partir de tais textos podemos conhecer a vida dos índios e a natureza das Américas da época. Além disso, esses autores revelam muto sobre a visão que os europeus tinham de si e do mundo.


Nesse sentido, é também interessante conhecer a Carta de Mestre João Faras e A relação do piloto anônimo.

Para se inteirar mais, Viagem do Descobrimento, de Eduardo Bueno, é um ótimo texto introdutório. Entre os estudos mais avançados é preciso conhecer o de Capistrano de Abreu: O descobrimento do Brasil.


Há várias interpretações e análises sobre as concepções de mundo do homem europeu que se via surpreendido pela América e seus habitantes. Uma das mais interessantes é Visão do paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda.


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