top of page

A PONTE PARA O SEMPRE, DE RICHARD BACH

Atualizado: 26 de dez. de 2025

Romance autobiográfico de Richard Bach, autor do best seller Fernão Capelo Gaivota.


Narrativa regular, com quase nenhum momento de tensão. O argumento por trás dos momentos de crise é sempre banal, o que impede a construção de um drama genuíno.


O ENREDO

A ponte para o sempre se inicia com o protagonista trabalhando como piloto. Ele faz curtos vôos de entretenimento num pequeno avião em cidadezinhas do interior. Essa ocupação permite uma vida errante, livre de qualquer compromisso. Entretanto, ele busca sua alma gêmea, o grande amor.


Logo sua vida toma outro rumo. Ao telefonar para seu editor, ele descobre que está milionário por causa do estupendo sucesso de seu livro. Rico, ele deixa seu dinheiro com um administrador de bens e decide aproveitar a vida.


Ele leva então uma existência despreocupada, conhece várias mulheres, compra vários aviões, inclusive antigos caças, como um P 51 Mustang e um jato T 33. Mas sempre que estabelece contato com uma mulher, ele logo se pergunta se aquela é sua alma gêmea.


Um dia, em Los Angeles, tratando da adaptação para o cinema de seu livro mais famoso, ele esbarra em Leslie Parrish, famosa atriz hollywoodiana. Os dois estabelecem uma profunda amizade que evolui, lentamente, para um romance.


Inicialmente, Richard insiste num “relacionamento aberto”, mantendo suas amantes. Surge a crise, Leslie quer fidelidade, Richard teme perder sua liberdade. Esse é um dos pontos altos do livro, com foco nos dilemas do personagem principal.


Para aumentar a intensidade dramática, surge um novo grande problema. Os administradores dos bens de Richard Bach simplesmente perderam todo seu dinheiro e ainda deixaram de recolher impostos federais. Dessa forma, o escritor está com uma dívida de um milhão de dólares com o fisco.


Em meio à ameaça de prisão e à crise conjugal, Leslie Parrish toma a frente. Ela arranja advogados, contadores e inicia uma batalha judicial para resolver a situação fiscal de Richard. Isso tudo apesar da resistência do amante em assumir o relacionamento de forma definitiva.


Sem surpresa, o protagonista se rende ao compromisso com a amada. O casal começa, então, uma vida nova. Deixam Los Angeles e vão morar num trailer no deserto, ao lado de um aeroporto, onde passam o tempo treinando em planadores. Mas eles decidem comprar uma casa após tempestades de areia e terem o trailer arrombado.


O processo com a Receita Federal se arrasta e após várias tentativas de pagamento, perceberam, junto dos advogados, que a única saída seria decretar falência. Então eles vivem com o resto do dinheiro de Richard Bach, até que tudo se acabe.


A casa nova deles era bem pequena e ficava numa região de floresta. Logo, porém, eles recebem a notícia de que aquelas árvores seriam derrubadas.


Isso faz Leslie faz reviver seu espírito de luta social. No passado, ela tinha feito protestos contra a Guerra do Vietnã e pela igualdade racial, agora ela se torna uma ativista ambiental.

Os dois mergulham de cabeça nessa luta e durante quatro anos fazem uma cruzada jurídica contra derrubada da floresta e contra a Receita.


Quando vencem essas duas guerras judiciais, eles se casam e mudam para outra casa. Sem muito dinheiro, levam uma vida a dois com várias descobertas mútuas.


Após algum tempo, Richard elabora a tese da “ponte para o sempre”, o título do livro. Ele crê nas viagens astrais. Mas elabora a ideia de que seria possível desenvolvê-las a tal ponto que não seria mais necessário morrer. O indivíduo poderia apenas decidir um dia sair definitivamente de seu corpo.


Tal ideia se alia à tese inicial de “alma gêmea”. De acordo com o autor/personagem, as almas juntam-se através dos tempos; há porém a chance de não se encontrarem ou se desencontrarem em algumas encarnações. A “ponte para o sempre” resolveria então esse problema, podendo as almas gêmeas viverem juntas eternamente.


O livro termina com casal desenvolvendo suas viagens astrais e o protagonista palestrando sobre o assunto. Ele obtém sucesso e logo Leslie acaba por se tornar palestrante também.


Foto: Bibliocanto


SOBRE O AUTOR

Richard Bach é famoso por conta de seu Fernão Capelo Gaivota, que influenciou uma geração. Para falar a verdade só soube que ele tinha outros livros por causa do @Bastter, que menciona um ou outro de vez em quando.


A obra do autor é geralmente classificada como de autoajuda. Acho que fica, ao menos cronologicamente, entre um Hermann Hesse (1877-1962) e um Paulo Coelho (1944-). Talvez haja alguma influência entre esses autores, inclusive em relação ao aspecto espiritual. Alguém poderia estudar isso um dia.

 

CRÍTICA

A ponte para o sempre apresenta como protagonista o próprio Richard Bach. É, então, um romance autobiográfico, como ele afirma no prefácio:


“O que se encontra nesse livro aconteceu de fato, quase da maneira como foi escrito. Tomei algumas liberdades com a cronologia, algumas pessoas no livro são compostas, a maioria dos nomes é fictícia. Mas eu não poderia inventar o resto, mesmo que tentasse; a verdade não seria bastante plausível se fosse ficção.”

O enredo tem seu foco no envolvimento de Richard Bach com a atriz Leslie Parrish, a quem o livro é dedicado. Então, como diz o subtítulo da edição brasileira, trata-se também de um: “romance de amor”.


Como esse é um romance de amor autobiográfico, era de se esperar uma positiva do protagonista. No entanto, chama a atenção como o autor se autodescreveu de maneira tão negativa.


Logo de início, ele age de maneira infantil ao repetir o tempo todo que busca sua alma gêmea. “Ela estará aqui hoje” é a frase que inicia o romance e que ele repete incessantemente na primeira parte do livro. Algo que não se espera de um homem adulto.


Essa autodescrição negativa continua. Repentinamente, ele recebe mais de um milhão de dólares, resultado do sucesso de seu livro. Então ele decide deixar a fortuna nas mãos de um administrador. Você consegue imaginar coisa mais estúpida de se fazer?


Vamos dar um crédito e dizer que isso combina com o desejo de liberdade do personagem. Algo que depois vai resultar na resistência em assumir o casamento com Leslie Parish. Isso, porém, revela imaturidade, algo contraditório com o desejo inicial de encontrar a alma gêmea.


Talvez a intensão fosse colocar no meio da crise os sentimentos contraditórios de aceitação de um relacionamento sério, afinal, isso implicaria em abrir mão de uma certa liberdade. Mas a narrativa aí é frouxa, com as desculpas do protagonista baseadas em sentimentos pueris.


Em nenhum momento a renúncia à liberdade sexual é colocada em termos positivos, como em função de um ganho muito maior, como uma família. Pelo contrário, trata-se sempre de uma espécie de contabilização do que perder, a liberdade ou Leslie Parrish.


Esse seria o clímax do enredo, mas está longe de convencer. Afinal, um homem adulto que sonhava com a amada e que ao tê-la pensa em fugir em nome de uma pretensa liberdade é algo bem chinfrim; isso diminui o personagem.


Enquanto isso, Leslie é o personagem forte. Seu papel, comparado ao de Richard Bach, é muito mais digno. Ela toma decisões, resolve as coisas e é decidida. Ela redime e salva. Uma descrição em tudo muito mais positiva que a do protagonista.


Temos afinal um romance de amor, feito por um homem apaixonado. De qualquer forma, incomoda o autor se descrever dessa forma, com postura infantil, argumentos fracos e ações tolas.


Para completar, o casal vive de uma maneira tão leve e despreocupada que se torna difícil um leitor um pouco mais exigente se identificar. Talvez o livro funcione como mera literatura de evasão, ou seja, um romance superficial de leitura simples e fácil, um passatempo.


Esse, porém, não parecer ser o caso, o livro aparentemente propunha algo a mais.

 

INCURSÃO NA ESPIRITUALIDADE

O personagem central (autor/protagonista) afirma em mais de uma ocasião que é contra qualquer religião estruturada na sociedade. Para além disso, ele relata sua experiência de viagens astrais. O livro, assim, reflete algo de New Age, ou Nova Era, que se tornou moda nos anos 80 (o livro é de 1984).


O protagonista, desde o início, tem a experiência de sonhos profundos. Ele conhece a técnica de dormir profundamente em qualquer condição, algo treinado pelos militares norte-americanos (Richard Bach foi piloto da força aérea americana).


Essa prática se soma, então, à sua teoria de vidas possíveis. O personagem crê que ao tomarmos uma decisão a alternativa deixada de lado começa a fazer parte de um universo paralelo.


Assim, se você larga a namorada agora, em um universo paralelo, seu outro eu mantém o relacionamento e isso se torna a realidade naquele universo, como todos os desdobramentos óbvios. Isso é parecido com o que hoje é popularmente chamado de multiverso.


Em vários momentos da narrativa, o personagem se pega conversando com esses outros eus que são resultado de decisões diferentes em momentos-chave da vida. Isso evolui para o conceito de viagem astral, que por sua vez resultará no conceito de ponte para o sempre, uma espécie de vida eterna espiritual e consciente.


O livro apresenta, assim, uma exótica concepção espiritualista e termina com o protagonista fazendo palestras.


É curioso que seja um romance de amor misturado com uma defesa de tese espiritualista exótica. Isso tudo com um personagem autobiográfico cheio de defeitos, como imaturidade (que ele supera), inocência (que mantém) e mesmo tolice (o que torna a conversa sobre viagem astral mais complicada).


Enfim, um livro frouxo por causa do personagem e com uma concepção espiritualista exótica.

 

POST SCRIPTUM

Richard Bach e Leslie Parrish se divorciaram em 1997, após vinte anos de casamento.

Um outro livro seu, One, é considerado a sequência desse. Mas não pretendo ler, no máximo faria a releitura do Fernão Capelo Gaivota, quase 40 anos depois da primeira leitura.


REFERÊNCIA:

BACH, Richard. A ponte para o sempre. Trad. LEMOS, A. B. Pinheiro. Rio de Janeiro: Record, S/d.


LEMBRE-SE: conhecimento bom é conhecimento compartilhado. Se você gostou desse conteúdo mande para quem pode se interessar pelo assunto.


DISCLAIMER:

Essa é uma produção independente, sem patrocínio de qualquer natureza.

As menções a obras são espontâneas e não constituem indicação de compra.

Esse material foi redigido por um humano, sem uso de inteligência artificial.

Você pode usar trechos do texto, desde que cite a fonte.

Considere cadastrar-se no Bibliocanto, se ainda não o fez. Assim receberá os conteúdos diretamente em seu e-mail, antes de virem para o blog e sem pagar nada por isso.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

©2023 por Bibliocanto. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page