NESTOR VÍTOR, POETA E CRÍTICO LITERÁRIO, É SURPREENDENTE FICCIONISTA
- Ribas Carneiro
- há 2 dias
- 8 min de leitura
A novela Parasita, de Nestor Vítor, retrata a Belle Epoque carioca.
Nestor Vítor ficou famoso como crítico literário e poeta, mas foi também autor de romance, contos, novelas e poesia. Sua obra literária, porém, está dispersa e sem novas edições.
Agora, a reedição de sua novela Parasita permite conhecer um autor que foi, em sua época, uma referência intelectual.
Nestor Vítor, poeta e crítico literário
Nestor Vítor (1868-1932) nasceu em Paranaguá e atuou como professor, crítico literário, poeta e político. Foi grande responsável pela divulgação da obra do amigo Cruz e Souza e do Simbolismo no Brasil.
Sua obra poética acabou ficando ultrapassada, em partes devido ao rápido declínio da estética simbolista no Brasil. Mas o autor se consagrou como crítico agudo e perspicaz.
Ao longo de décadas, fez crítica literária em grandes jornais do Rio de Janeiro, cultivando, paralelamente, a criação literária. Com o tempo, porém, sua obra foi sendo esquecida, subsistindo em círculos restritos.
Sua defesa do Simbolismo e as ressalvas ao Modernismo e principalmente a Mário de Andrade fizeram sua obra crítica sobreviver. Sua literatura, porém, ficou quase completamente de lado.

Parasita, novela quase inédita e surpreendente
Nestor Vítor publicou Parasita em 1928, na revista Feira Literária, da Academia Brasileira de Letras. Agora, quase cem anos depois, a novela foi “descoberta” e reeditada.
Trata-se da primeira edição em livro, que só surgiu graças ao trabalho de pesquisa do professor Allan Valenza da Silveira. Ele é quem realizou a pesquisa e a "descoberta" dessa novela. Também é responsábel pelo processo de reedição e atualização ortográfica do texto.
A novela em si é uma grata surpresa, especialmente para quem conhece a linguagem soporífera de alguns textos críticos do autor.
O Tempo e o narrador em Parasita
A narrativa em Parasita é precisa e econômica, coisa rara na muitas vezes palavrosa literatura brasileira. Há nela uma tensão crescente, com um final inesperado.
Logo de inicio, numa pequena charrete estão Américo Campos e Silva Freire, vindos de um enterro. O diálogo se inicia no trajeto do cemitério para o centro, avança durante o almoço num bom restaurante e termina com a despedida na rua.
O tema da conversa é o recém-falecido Alberto Nogueira. O deputado Silva Freira manteve longa amizade com o falecido, por isso atua como um narrador-testemunha.
A narrativa, assim, cobre desde a juventude de Alberto Nogueira, quando foi estudar no Rio de Janeiro, até seu falecimento. Tudo ocorre num tempo histórico recente. O contexto inclui o abolicionismo, a campanha republicana, o encilhamento e as crises do período militar (Marechal Deodoro e Floriano Peixoto).
O interlocutor, Américo Campos, vê no falecido um parasita social. Ele seria um vagabundo a viver às custas dos outros ou de alguma herança mal administrada. Por isso estranha o fato de Freire cuidar do enterro.
Com o intento de revelar a verdadeira natureza do amigo morto, o deputado convida o mais jovem para o almoço.

Uma vida falhada
O deputado Silva Freire revela cada fase da vida de Nogueira. Na juventude, falhara nos exames de admissão na faculdade e na escola politécnica. Quando aprovado, logo desistia dos cursos, culpando alguém ou algo que o incomodava. Assim, aos poucos surge um indivíduo pouco ajustado à vida prática.
Ao receber como herança a fazenda que fez a fortuna de sua família, Nogueira não consegue encaminhar os negócios. Mal administrador, vende tudo num mal momento. O dinheiro é suficiente apenas para sua mãe ter uma casa e vida modesta no Rio de Janeiro.
No anos seguintes, Alberto Nogueira não se enquadra em nenhum trabalho. Vive nos cafés e restaurantes, leva uma vida boêmia, gastando o pouco que tem com seus amigos. É reconhecido pelos pares como um talento único, inteligentíssimo, um verdadeiro artista. Apesar disso, nada se vê do que produz.
Nestor Vítor realiza então um retrato da boemia literária carioca.
Vida boêmia
A vida boêmia dominou os circuitos intelectuais cariocas nas primeiras décadas do século XX. Esse período acabou sendo denominado Belle Époque.
Trata-se de um estilo de vida que poetas como Olavo Bilac e Emílio de Menezes cultivaram. Eles, e muitos outros, vivam em cafés e rodas de conversa, produziam poesia circunstacial e conseguiam alguns trocados nos jornais.
Nesse ponto dois parágrafos são muito ilustrativos.
“— Vê também o meu amigo que, além de anfitrião e bom profeta, era o Alberto um camarada prestativo e de alguma influência, dando-se como se dava com muita gente, que ele conhecia quase sempre de cafés e das redações dos jornais. Se um defeito ele tinha, era justamente esse de não sair dessas rodas, onde ordinariamente era encontrado até altas horas da noite. Esquecia-se do tempo conversando, lendo jornais, tomando café ou cerveja, bebericando um cognac, sempre cercado de companheiros.
Também naquela época, podia-se passar o tempo assim, porque outra, muito mais intensa, era a nossa vida espiritual, e havia ideais, elos, por conseguinte, que prendiam muito mais os entre si, e elementos para tornar atraente, necessária a convivência de uns com os outros, nos círculos intelectuais.” (p. 31)
Retrato da boemia literária
Nestor Vítor testemunhou a boemia literária. Por isso, em Parasita, ele realiza um retrato muito agudo de seus participantes.
Uma característica da boemia literária era o seu vazio. Os frequentadores dessas rodas eram bons em piadas, trocadilhos e versos improvisados. Porém, sua produção intelectual, com algumas excessões, era geralmente pífia.
Alberto Nogueira, recém-falecido, é uma caricatura de boêmio que vivia em rodas literárias, nos cafés e bares, posando de intelectual. Ele conseguiu fama em seu círculo, mas nunca se viu obra sua. Nestor Vítor consegue elaborar um retrato completo.
“Quisesse o Nogueira e se houvera encaminhado rapidamente no jornalismo, nas letras. Ele era um rapaz de ideias, e, ainda mais, de ideias próprias, desses cujo encontro sempre nos surpreende, porque eles nos produzem a sensação de que subitamente passamos a respirar num novo clima, fazendo-nos ver por outro prisma a vida e as coisas. Muitos dos nossos o consideravam o Balzac do grupo, pela extensão e complexidade de sua inteligência.” (p. 31)
Nogueira tinha uma desculpa para cada uma de suas qualidades desperdiçadas. Não exercia o jornalismo ou as letras, apesar do grande talento, porque “era muito exigente consigo mesmo” (p. 32).
Sua presença, talento e importância estava relacionada apenas com sua disposição em conversar, pilheriar e discutir nas rodas de amigos. Uma ocupação vazia, que era, porém, o que fazia a “vida literária” daquela época.
Teoria e prática
Essa novela, porém, não é apenas um retrato da boemia carioca das primeiras décadas do século XX. Uma reviravolta no enredo aponta para algo maior.
A capacidade que Nogueira tem de discutir e apresentar ideias, sem jamais levá-las a cabo, tem um efeito inusitado. Silva Freire logo aprende a discutir com o amigo e fazer tudo exatamente ao contrário do que ele diz. Ele explica:
“[...] Eu lhe conto: é que conversar com o Nogueira se tornara para mim.... como direi? um indispensável estímulo intelectual, um meio infalível que eu tinha de esclarecer minhas próprias ideias, e, com isso, de fortificar-me em determinada resolução para assumir atitude certa por um tempo como este, de situações tão mutáveis, em que a carreira de um homem público, como eu vim a ser, depende muitas vezes de uma simples cartada que se dê.” (p. 35)
Assim, à primeira vista, Freire parece se inspirar nas ideias de seu amigo, mas a realidade é outra.
Após o abolicionismo, a campanha republicana tomou conta da capital. Nogueira se posicionou a favor do grupo de Silva Jardim. Freire assumiu o lado de Quintino Bocaiúva. Os dois discutiam acaloradamente.
O grupo de Bocaiúva ganhou e o jovem Freire garantiu uma colocação no governo. Sua decisão se mostrou acertada.
Essa seria a regra na vida desses dois amigos. Enquanto Nogueira assumia uma atitude mais teórica, Freire buscava o caminho prático. Eram dois universos que se chocavam.
O conflito, entretanto, era essencial para o futuro deputado. A partir das discussões com Nogueira, ele conseguia se posicionar combativamente na tribuna e no trato público. Aos poucos Freire foi reforçando seu papel político.
Assim, as teorias de Alberto Nogueira serviam para a ascenção de Silva Freire. Como Nogueira era incapaz de atitudes práticas, criava-se a impressão de que ele era um parasita fracassado. Freire, ao contrário, destacava-se como um homem de espírito ativo, mas suas ideias dependiam de Nogueira.
Trata-se de uma reviravolta na narrativa. Alberto Nogueira, que parecia o parasita da história, revela-se o hospeiro. Seu parasita, Silva Freire, retira-lhe todo sumo de vida.
Mediocridade
Os personagens de Parasita são todos caricatos, tomados por grande mediocridade. Nesse sentido, Nestor Vítor está junto de Machado de Assis e Lima Barreto, que também retratavam essa extraordinária força nacional.
Nogueira, para além de diletante e superficial, era também poeta medíocre. Da mesma forma, suas ideias políticas eram peculiares, senão ridículas.
Silva Freire, o deputado e empresário, é também um medíocre completo. Ele mesmo se auto-retrata, ao comentar sobre as teorias políticas do amigo:
“Eu, em se tratando dessas questões de ideias, entendia que aqueles a quem coubera organizar o sistema deviam saber o que estavam fazendo, e colocava-me assim, sem mais exame, na modesta e cômoda posição de quem confia em seus chefes.” (p. 52).
O reconhecimento dessa mediocridade também é feito pelo interlocutor, Américo. Ele é o ouvinte, exatamente na nossa posição de leitor. A certa altura, ele retruca Freire, por suportar as manias e casmurrices de Nogueira:
“— O que eu vejo, disse Américo, é que o senhor é um bonachão e que além disso tem seus fracos. Eu por mim, na minha convivência íntima, nem um dia, doutor... Desculpe-me, mas ele o que era um grande impertinente e um toleirão.” (p. 53)
A esse protesto Freire rebate com o início da grande revelação final:
“— Não fale assim, meu amigo. Dada a superioridade daquela natureza, benevolência quem tinha era ele comigo.” (p. 53)
Conclusão
Com o golpe de estado de Floriano e a Revolta da Armada, o pobre Nogueira acaba preso. Sua libertação demora e, depois de solto, vai para o interior.
Sem posição, sem dinheiro, ele teve de viver de favor de Freire. Logo a doença o acometeu e em pouco tempo veio a falecer.
Silva Freire termina o retrato de seu amigo falecido da seguinte forma:
“O Alberto nasceu para ser-me particularmente útil, enquanto que a si ele só soube fazer mal. Devo-lhe minha carreira na imprensa, em que primeiro ele me colocou, proporcionando-me depois adquirir capital com que eu pudesse consolidar a situação a que nela chegara. Devo-lhe ainda em grande parte poder ganhar a reputação que ganhei de parlamentar generoso e fecundo. Mas acima de tudo isso, meu caro, ele afinal é que foi verdadeiramente minha boa estrela na carreira política, e desta é que procede todo o meu maior prestígio e valia.” (p. 85)
Em Parasita, Nestor Vítor retrata um momento crucial da história política e cultural brasileira. Seu retrato da boemia carioca é completo. Mas ele consegue ainda revelar os meandros da mediocridade da política nacional. Nesse sentido, trata-se de um texto ainda bastante atual.
Onde ler
Parasita, novela de Nestor Vítor, merece a leitura. A edição eletrônica pode ser encontrada na Amazon por preço simbólico, veja aqui.
Bibliografia
VÍTOR, Nestor. Parasita (novela). Curitiba: Paralelo 25, 2024.
Para conhecer o crítico Nesto Vítor:
SILVEIRA, Alan Valenza da. Nestor Vítor: o melhor da crítica. Ponta Grossa: Ed. UEPG, 2012.
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