KAFKA E A BONECA VIAJANTE, DE JORDI SIERRA i FABRA
- Ribas Carneiro
- 3 de jan.
- 3 min de leitura
Obra que conquista leitores de qualquer idade.
BASEADO NUMA HISTÓRIA QUE SE CONTA SOBRE KAFKA
Certa vez, Kafka viu uma menina chorando por ter perdido a boneca no parque Steglitz, em Berlin. Para consolá-la, o escritor prometeu entregar-lhe cartas da boneca.
A história foi relatada pela companheira do escritor à época, Dora Dymant. De acordo com ela, o escritor dedicou-se totalmente a esses escritos durante três semanas.
A menina teria recebido, assim, um conjunto literário exclusivo, escrito por um dos maiores escritores do século XX.
Obviamente, essas cartas foram muito procuradas, mas jamais apareceram. O que elas continham?
Ninguém sabe. Não há evidências maiores que o testemunho de Dora. Mas Jordi Sierra i Fabra encontrou aí o mote para explorar com talento.

UM ROMANCE BASEADO NUMA HISTÓRIA FANTÁSTICA DA VIDA REAL
Em Kafka e a boneca viajante, o autor toma a liberdade de contar essa história.
“Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. Pode ter sido este ou outro qualquer, não acho que seja importante. O que aconteceu é tão belo em si mesmo que o resto carece de importância.” (Sierra i Fabra, p. 125)
O retrato que o autor faz de Franz Kafka enfatiza seu bom coração e sua doença já avançada. Nos últimos anos de vida, o autor sofreu com a tuberculose, da qual faleceria em 1924.
Dora Dymant também surge como uma personagem muito dedicada ao frágil e combalido Kafka. A obra ressalta o respeito mútuo existente, contexto era necessário para o enredo.
A menina que perdeu a boneca, a pequena Ilse, é decidida, curiosa e insistente, um dos melhores personagens.
A narrativa é bem afiada em relação aos diálogos. Pressionado pela curiosa Ilse, Kafka precisa improvisar enredos, acalmar a menina e não se contradizer. Ilse, entretanto, é investigativa e faz perguntas difíceis.
Assim, Kafka inventa que é um carteiro de bonecas. Esses tais carteiros entregam cartas das bonecas para suas donas. Eles inclusive lêem para as meninas, quando elas não sabem ler direito ainda.
Por causas desses improvisos e da insegurança de Kafka, os diálogos entre Ilse e ele são tensos. O resultado é instigante para o leitor. Cada capítulo gera ansiedade, desejo de descobrir o desenrolar da trama. Por isso a leitura rápida, com gosto.
Em relação à linguagem, como temos uma personagem criança, há a tendência de simplificação. Mas isso não significa falta de atenção aos efeitos literários.
A escolha (ou imposição do mote) pelo gênero epistolar permite narrar viagens fantásticas, que relativizam tempo e espaço. Isso se encaixa perfeitamente ao estilo da narrativa fantástica kafkiana.
Dessa forma, da narrativa emerge um personagem Kafka bastante convincente. Temos então trama bem resolvida e personagens bem trabalhados.
Não é um livro perfeito. Há alguns momentos piegas. Além disso, algumas sentenças sem sujeito não funcionam muito bem ao fim de alguns capítulos. Mas é emocionante, terno e complexo. A gente lê com gosto, sem querer parar.
KAFKA E BONECA VIAJANTE É UM LIVRO INFANTO-JUVENIL?
Tive essa dúvida. Na verdade, minha filha de nove anos trouxe o livro para casa. Ela leu na escola, ao longo do semestre, e insistiu que eu lesse. Ela adorou. Li e gostei.
Kafka e a boneca viajante é um livro capaz de apaixonar leitores de diferentes idades.
A obra toca em assuntos complicados para as crianças, como o relacionamento entre Kafka e Dora, que vivem juntos sem se casar. Há ainda a doença fatal de Kafka, além do próprio sentimento de perda de Ilse, que alguns autores comparam ao luto.
Tudo isso, porém, é surge de maneira leve e a ternura que se sobressai conquista os leitores, seja de que idade for.
SERVIÇO
SIERRA i FABRA, Jordi. Kafka e a boneca viajante. 2ª. Ed. Trad.: GOLDONI, Rubia Prates. São Paulo: Martins fontes, 2009.
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