MARCO POLO E CRISTÓVÃO COLOMBO, A CURIOSA RELAÇÃO ENTRE ESSES AVENTUREIROS
Cristóvão Colombo foi influenciado decisivamente pelo relato de Marco Polo, e isso marcou a história.
Um dos livros mais influentes da história é Viagens de Marco Polo, sem nenhum exagero. Afinal, Cristóvão Colombo propôs a busca por um caminho para o Oriente por ter lido esse relato.
A descoberta do caminho para o Novo Mundo é um dos fatos mais relevantes da história da humanidade. Logo, o livro de Marco Polo influenciou um acontecimento histórico fundamental.

MARCO POLO E CRISTÓVÃO COLOMBO
Viagens de Marco Polo é um livro medieval que influenciou um dos maiores feitos do Renascimento. A partir dele Cristóvão Colombo considerou a possibilidade de alcançar o Oriente navegando para o oeste. E essa viagem alterou completamente os rumos da história.
É claro que outras pessoas foram influenciadas por esse relato, mas nenhuma delas alcançou a dimensão de Cristóvão Colombo.
Nos relatos de Cristóvão Colombo estão registradas várias observações relativas aos relatos de Marco Polo. Por exemplo, ao explorar o atual arquipélago das Bahamas, Colombo relata seu plano de encontrar o governante da Mongólia:
Agora, porém, já me determinei a ir à terra firme, e também à cidade de Quisay, para entregar as cartas de Vossas Majestades ao Grande Cã, pedir respostas e regressar com elas. (COLOMBO, p. 55)
O plano então era alcançar o Oriente e entregar cartas diplomáticas ao governante mongol. A ideia foi obviamente retirada dos relatos de Marco Polo, especialmente pelo nome da cidade. Mas essa não é a única referência, há muitas outras ao longo do primeiro diário de Cristóvão Colombo.
O RELATO QUE MUDOU O MUNDO
A segunda parte de Viagens de Marco Polo trata do Sudeste Asiático e Oceano Índico. Esse é um dos pontos altos do relato. Lá estão descritas ilhas com florestas de árvores imensas, inúmeras aves coloridas, papagaios, nativos nus e canibais.
Cristóvão Colombo certamente lembrou do que lera quando aportou em algumas ilhas do Caribe. O cenário que povoou o imaginário de marinheiros e aventureiros por dois séculos de repente parecia ser algo real.
O relato de Marco Polo era uma referência para muitos dos envolvidos nas grandes navegações. Isso o torna um texto fundamental para compreender as ideias que circulavam na época dos descobrimentos.
Descrições do Oriente exótico, rico e misterioso circularam na Idade Média. Mas nenhum relato ficou tão conhecido como o de Marco Polo. Ao longo do tempo, essa obra teve inúmeras edições, compilações e versões.
Houve controvérsias, porém. O livro de Marco Polo foi criticado por seus exageros, sendo até chamado de pura fantasia. Chegaram a considerar o autor um mentiroso ou falsário. Mas a obra sobreviveu e povoou o imaginário de gerações.
Cristóvão Colombo leu com atenção essa obra, como se pode depreender de seu diário de navegação.
A descrição da Ilha de Nenispola por Marco Polo, por exemplo, parece antecipar os relatos de Colombo:
Esta ilha não tem rei, e o povo vive como animais, nu, sem coisa alguma para cobrir o corpo. É de religião idólatra, e os bosques que possui são todos de árvores de grande valor, isto é, sândalos, cocos, craveiros e muitas outras espécies úteis. (POLO, p. 124)
Agora um trecho do relato de Colombo sobre uma das ilhas que visitou nas Bahamas:
Ao desembarcar viram árvores muito verdes, muitas águas e frutas de várias espécies. [Os índios vinham] trazendo papagaios e fios de algodão em novelos e lanças e muitas outras coisas, que trocamos por coisas que tínhamos conosco, como miçangas e guizos. Enfim tudo aceitavam e davam do que tinham com a maior boa vontade. Mas me pareceu que era gente que não possuía praticamente nada. Andavam nus como a mãe lhes deu à luz; inclusive as mulheres, embora só tenha visto uma robusta rapariga. (COLOMBO, 42-43)
A IDADE MÉDIA PREPAROU O RENASCIMENTO
Marco Polo era um homem da Idade Média e em vários momentos de seu relato ele recorre a crenças populares de sua época. É assim, por exemplo, que ele menciona homens de rabo comprido que vivem nas montanhas de Lambri e outras maravilhas.
Cristóvão Colombo, apesar de inserido no Renascimento, também carregava importante bagagem medieval. Basta lembrar que ele se baseou nos escritos e na cartografia medievais para planejar sua viagem.
Assim, quando tentava se comunicar com os nativos das ilhas do Caribe, ele associava as informações com o que já tinha lido. Isso explica suas observações sobre cinocéfalos, amazonas ou canibais.
O fato é que Marco Polo e Cristóvão Colombo estavam inseridos na cultura medieval. Colombo, porém estava inserido num caldo cultural em evolução, o Renascimento, mas solidamente calcado no pensamento medieval. Sérgio Buarque de Holanda já abordou essa extraordinária herança cultural:
É interessante notar como nestes casos, não menos do que nos motivos claramente edênicos, se mostra Colombo ainda tributário de velhas convenções eruditas, forjadas ou desenvolvidas por inúmeros teólogos, historiadores, poetas, viajantes, geógrafos, até cartógrafos, principalmente durante a Idade Média. (HOLANDA, p. 22.)
Colombo, então, desenvolveu até seu projeto de viagem a partir do arcabouço produzido por autores medievais e renascentistas. Nesse caldo cultural, Viagens de Marco Polo teve uma papel fundamental.
REFERÊNCIAS
COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América. Trad. Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2010.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. São Paulo: Brasiliense/Publifolha, 2000.
POLO, Marco. Viagens de Marco Polo (Il Milione). Trad. MEIRA, N. São Paulo: Clube do Livro, 1989.
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