Como nos tornamos leitores?
- Ribas Carneiro
- 25 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de dez. de 2025
O que nos torna leitores enquanto a grande maioria foge dos livros?

DE QUE LEITOR ESTAMOS FALANDO?
Antes de mais nada, é preciso definir com um pouco mais de exatidão de que leitor estamos falando.
Existem pessoas que lêm de vez em quando, outros que leram no passado e abandonaram de vez a prática. Há os que gostam de ler, mas se perdem ao buscarem obras ou esquecem o que leram.
Há também os leitores profisisonais, professores que vivem com seus livros, pesquisadores e amantes da literatura, da história ou da filosofia.
Para deixarmos a coisa mais clara, vamos definir aqui o nosso leitor. Que tal pensarmos naquele apaixonado pela leitura e pela literatura? Tomemos alguém que quer saber mais sobre o mundo e principalmente sobre si mesmo.
Vamos considerar o leitor definido por Émile Faguet em seu A arte de ler. Esse leitor pode, eventualmente, desenvolver uma vida intelectual. Seu objetivo imediato, porém, é ter prazer em ler e aprender. Ele é diferente de profissionais ou acadêmicos que leem para lecionar, produzir materiais didáticos, artigos, dissertações, teses, livros.
LEITORES PROFISSIONAIS
O leitor profissional necessita de uma relação mais eficiente com a leitura. Dessa forma, ela é mais direcionada e profunda. As obras são esquadrinhadas, com produção de fichas e análises. A leitura é, enfim, um trabalho intelectual.
Isso não quer dizer que um profissional de uma área técnica não possa também desenvolver uma vida intelectual. Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade eram funcionários públicos, restritos a uma vida burocrática. Ambos, porém, acabaram por ser dos mais notáveis escritores brasileiros.
O trabalho intelectual também pode ser desenvolvido pelo leitor comum, aliás é desejável. Ele busca prazer na leitura e no estudo, tem o potencial de desenvolver uma vida intelectual, mas não o dever.
Uma coisa, porém, é certa: o leitor profissional precisou ter passado pela experiência de leitor comum.
O COMEÇO DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA
Na adolescência é comum ler desorganizadamente várias obras. É uma experiência enriquecedora se apaixonar pelos livros, personagens e autores e se deixar levar pelo sentimento.
Essas leituras de juventude são feitas sem anotar, sem esquadrinhar os textos. Isso não é problema, mais tarde poderemos voltar a esses livros. Porém, se deixarmos escapar esse momento especial de experiência de leitura, haverá um provável déficit no futuro.
Será melhor leitor e pensador aquele que passou pela experiência da leitura desorganizada.
Em algum momento, porém, é preciso ajustar o método, para ir além.
COM LIBERDADE, PODE-SE AMAR A LEITURA
Todos sabem que o amor não pode ser forçado. Logo, o amor pela leitura também parte de um ato deliberado, livre, autônomo. Não se pode aprender a gostar de algo sendo forçado a isso.
Daniel Pennac, em seu Como um romance, demonstra que não se “aprende” literatura ou a amar os livros. Ele (e nós, é claro) sabe que não são as perguntas, os questionários, os textos de interpretação que formarão um leitor.
A experiência da leitura tampouco é controlável. Haverá períodos de menor desejo de se ler, e haverá épocas em que os livros serão nossos melhores companheiros. Mas, no final, a maioria de nós terá neles colegas apenas esporádicos.
Tampouco há regularidade no gosto pela leitura. Haverá livros que amaremos profundamente, outros que detestaremos, outros que serão sempre uma incógnita.
Enfim, como todo ato subjetivo, pessoal, a leitura não obedece a roteiros pré-definidos. Realmente, o leitor é rei no campo da leitura. Ele decide como, quando e se vai ler.
Talvez, a leitura seja um momento especial de nosso dia em que, afinal, estamos no controle.
A leitura é um ato de liberdade. Com o livro nas mãos nós estamos no controle. Aproveitemos!
CONCLUSÃO
Você não precisa levar uma vida totalmente voltada para o universo intelectual. Qualquer pessoa pode cultivar a vida intelectual, basta dedicar alguns minutos do dia à leitura e estudo. Aliás, isso é desejável.
Qualquer profissional obterá vantagens em sua carreira, independente de qual for, se souber tirar partido do desenvolvimento cultural autônomo.
Não há grandes amarras em relação a isso, é importante, porém, não nos afobarmos, criar ansiedade de leitor ou metas natingíveis. No final o que vale é: leia do jeito que quiser e seja feliz com isso.
Mas afinal, o que te fez leitor?
Aposto que houve mais de um fator nessa relação. Eu mesmo, vejo essa experiência como algo um tanto difícil de explicar. Acontece o mesmo com você?
Dúvidas ou sugestões sobre esse assunto?
Encaminhe-as pelo e-mail, terei prazer em buscar respostas.
REFERÊNCIAS:
PENNAC, Daniel. Como um romance. Trad.: WERNECK, Leny. Porto Alegre/Rio de Janeiro: L&PM/Rocco, 2001
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Ótima reflexões, professor. Posso me considerar um leitor profissional, mas o prazer pela leitura não está disssociado. Há aquela história que o Moacyr Scliar conta no livro "O texto, ou: a vida" sobre um escritor e seu vizinho:"O vizinho olhava o escritor que estava sentado, quieto, no jardim, e perguntava: 'Descansando, senhor escritor?' Ao que o escritor respondia: 'Não, amigo, estou trabalhando'. Daí a pouco o vizinho via o escritor mexendo na terra, cuidando das plantas: 'Trabalhando?' 'Não', respondia o escritor, 'descansando".
Quando leio seus textos aqui no bibliocanto estou trabalhando e descansando ao mesmo tempo.
Eu me lembro quando você me indicou o livro "Como falar dos livros que não lemos", do Bayard. O "contraditório" nesta obra é que,…