top of page

O pintor Guido Viaro, mestre da arte paranaense

Guido Viaro definiu os rumos das artes plásticas do Paraná no século XX


IMPORTÂNCIA DE GUIDO VIARO

Guido Viaro é um dos maiores nomes da pintura brasileira do século XX. Figura central no desenvolvimento de mais de uma geração de pintores, influenciou a pintura paranaense por décadas.


Ele nasceu na Itália em 1897. Iniciou sua carreira artística na juventude, sob a influência de um tio escultor. Mas o ambiente limitado da aldeia e o fascismo italiano o empurraram para experiências nos grandes centros artísticos de Veneza, Florença, Milão, Roma e Paris.


Chegou ao Brasil com praticamente 30 anos, em 1927. Em 1929, adotou Curitiba como sua cidade, onde conviveria com Alfredo Andersen e Theodoro de Bona. A influência desses dois mestres se somou a sua formação autodidata e artesanal, mas com diálogos profundos com as estéticas de vanguarda.


Esse caminho enviesado o fez criar uma obra moderna dentro do ambiente cultural curitibano. Isso numa época em que a cidade ainda vivia sob a influência do paranismo e apenas esboçava uma reação ao academicismo.



Autorretrato n. 4, 1934. Guido Viaro (1897-1971).
Autorretrato n. 4, 1934. Guido Viaro (1897-1971).

O definidor do modernismo paranaense

Guido Viaro apontava para novos caminhos e, junto de Poty Lazarotto, Dalton Trevisan e Erasmo Pilotto, fez parte de um dos grandes momentos da arte paranaense. Era uma época de grande renovação das artes em Curitiba, consubstanciada na publicação da Revista Joaquim.


Essa obra coletiva foi considerada a entrada definitiva da arte paranaense na esfera do modernismo. De fato, as discussões estéticas levadas a cabo pela revista tocaram em pontos melindrosos para a época, como a validade do abstracionismo e a onda concretista.


Num âmbito mais local, o Paranismo foi identificado como parte do nacionalismo do Estado Novo de Getúlio Vargas.


Guido Viaro, a partir da Revista Joaquim, estabeleceu algumas das diretrizes do que viria a ser a nova pintura paranaense.


Sua atenção se voltada para as discussões artísticas de sua época, manteve-se, assim, preparado para as alterações estéticas do pós-guerra. Naturalmente, acabou envolvido nas acaloradas discussões sobre a arte paranaense a partir dos anos 1950. Ao lado dessa ação panfletária, ele desenvolveu importante ação pedagógica e formou novas gerações de artistas.


A partir de 1937, Viaro exerceu importante ação educacional em várias escolas de artes em Curitiba. Ele trabalhou por muitos anos na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Também lecionou para as crianças, ensinando desenho no Colégio Iguaçu e pintura no Centro Juvenil de Artes Plásticas.


Muitos artistas que viriam a definir a arte paranaense passaram por suas aulas, como Leonor Botteri, Calderari, Juarez Machado e Loio Pérsio.


Tratava-se de uma pessoa muito culta. O italiano era sua língua materna, dominava o português plenamente e sabia francês. Manteve correspondência com alguns dos maiores artistas plásticos do Brasil em seu tempo, bem como intelectuais, professores e jornalistas.


Guido Viaro se tornou, ao longo do tempo, um dos artistas mais influentes do Paraná. Essa influência ultrapassou os limites da estética. Com o tempo, bastava o reconhecimento público dele para garantir o sucesso de uma obra ou um artista. Viaro acabou definindo a carreira de muita gente em Curitiba.


Deposição, 1956. Guido Viaro (1897-1971).
Deposição, 1956. Guido Viaro (1897-1971).

O pintor Guido Viaro

O autodidatismo é a marca central na estética de Guido Viaro. Isso fez com que ele se mantivesse distante do academicismo. Ele era, antes de mais nada, habilidoso artesão, com conhecimento prático e grande talento, como se revela em sua pintura.


Sua sensibilidade e fina inteligência, porém, permitiram-lhe aprender as técnicas e reconhecer o valor das vanguardas. Por isso sua obra é difícil de classificar, pois ele assimilou várias influências em sua trajetória, com várias fases experimentalistas.


Mesmo assim, muitos críticos vêm-no como predominantemente expressionista. O termo, porém, é fluido, pois há vários expressionismos. O expressionismo alemão, por exemplo, é entendido por alguns como o único que merece essa denominação.


Em linhas gerais, a liberdade de criação do expressionismo se opõe à do realismo e à do naturalismo, mas também recorre à dramaticidade e exaltação. Dessa forma, o expressionismo pode seguir vários caminhos, desde o primitivismo até os limites da abstração.


De qualquer modo, Guido Viaro nunca se definiu como um expressionista. Ele sofreu influências, e talvez o expressionismo, muito forte no início do século XX, tenha sido fundamental em sua formação.


A obra de Viaro, porém, não revela apenas expressionismo. Há nela evidente primitivismo, talvez influência de seu trabalho com as crianças. Também há alegria, algo bem diferente do expressionismo alemão, por exemplo. Há ainda forte simpatia pelos excluídos da sociedade, numa temática realista. Enfim, suas nuances são muitas.


As várias influências que Viaro teve ao longo de sua careira se traduziram em experimentalismo, incorporação de novos elementos e até abstracionismo. Em termos técnicos, sua pintura evoluiu até à valorização dos espaços em branco. Ele não os via como vazios, mas zonas de transição e de destaque para as cores.


A obra de Guido Viaro abrange pintura, escultura, gravura e desenho. Em relação à pintura é difícil escolher apenas algumas poucas obras como representativas. Segundo a crítica, os momentos máximos do artista são os quadros Polaca (1935), Homem sem rumo (1940) e Adão e Eva no paraíso (1960).


Polaca, 1935. Guido Viaro (1897-1971).
Polaca, 1935. Guido Viaro (1897-1971).

Polaca

Nesse quadro, a luminosidade se combina com o fundo de cores quentes e faz destacar o azul profundo dos olhos. Há aqui sensualidade e um sentido mais elevado, talvez etéreo, como afirma Maria José Justino:

“É uma pintura quase de manchas, que o aproxima tanto dos impressionistas como dos machiaiolli, mas nela a expressão se afirma de maneira forte, as pinceladas nervosas captam o essencial. É uma pintura que estrutura as massas, onde o contorno não é coadjuvante, mas nervura da obra. Incrível como a leveza dessa pintura expressa a espiritualidade da jovem. É como se Viaro tivesse pintado essa obra num só impulso, e trouxesse o infinito de um só golpe. Nada falta e nada sobra.”
Homem sem rumo, 1940. Guido Viaro (1897-1971).
Homem sem rumo, 1940. Guido Viaro (1897-1971)


Homem sem rumo

Viaro conseguiu, nesse retrato, sintetizar muito da psiquê do grande artista Miguel Bakun, um homem profundamente angustiado. A composição é muito expressiva, como diz Maria José Justino:

“Nessa pintura há mesmo um certo contraste entre figura e fundo. Um homem triste e sensível se vê no meio de uma cidade deserta, de formas geométricas, de concreto. É como se os gestos não encontrassem amparo, estivessem contidos, detidos.”

Adão e Eva no Paraíso, 1960. Guido Viaro (1897-1971).
Adão e Eva no Paraíso, 1960. Guido Viaro (1897-1971).

"Adão e Eva no Paraíso" é uma interpretação do tema bíblico, sem a presença do pecado, da culpa, da condenação ou do castigo. Talvez seja o momento imediatamente anterior à queda. As pinceladas revelam algo de primitivismo, mas com muito equilíbrio nas cores. De acordo com Justino:

“As pinceladas são de uma liberdade provocativa, uma estrutura viva e orgânica. É um dos momentos felizes de Guido Viaro. Aqui o sagrado é o profano e vice-versa, e a alma da natureza é toda ela surpreendida nas sensações. Mesmo com toda essa liberdade gestual, a construção não o abandona: agora ela acontece solta, livre e bem estruturada.”

Guido Viaro, mestre da pintura paranaense

O pintor Guido Viaro é central para a compreensão das artes plásticas no Paraná. Seu talento ultrapassou fronteiras, sendo, sem dúvida, um dos maiores pintores brasileiros do século XX.


Sua atividade como educador o transformou no mestre de grandes artistas de Curitiba. Além disso, sua ação como divulgador artístico e agitador cultural modernizou radicalmente as artes plásticas do estado.


Talvez, um de seus melhores retratos nem seja um quadro, mas o texto sobre Miguel Bakun publicado no Joaquim. Isso revela um artista multitalentoso, pintor, escultor, desenhista, bom escritor e crítico de arte. Entretanto, sua autodescrição busca ser humilde, vejamos como ele próprio resumiu sua vida:

 

“Nasci nu como os outros, em terra longínqua muito pobre e bonita. Meus pais fizeram tudo por mim, não correspondi porém às esperanças deles. Às vezes tenho remorsos disso, já é tarde (não o pensem que o digo por cinismo), o que posso fazer agora? Nada. Com vinte anos, a política me pegou pelos cabelos e me empolgou a ponto de ser chutado logo depois – por quê? Por falta de equilíbrio, exorbitância de limites e outras coisas. Viajei um pouco, conheci homens de bem e maus sujeitos, sofri fome, que é penúltimo dos tormentos. Quase sempre fui mal interpretado, embora sendo franco e honesto. (...) Eu não sou um pintor nato, mas um artista em caminho.”

Bibliografia

JUSTINO, Maria José. Guido Viaro, um visionário da arte. Curitiba: Museu Oscar Nimeyer, 2007.


GOSTOU DESTE BIBLIOCANTO?

Então clique no coraçãozinho e mande um comentário.

Se não gostou aponte os problemas. Só assim vou melhorar.


LEMBRE-SE: conhecimento bom é conhecimento compartilhado. Se você gostou desse conteúdo mande para quem pode se interessar pelo assunto.


DISCLAIMER

Essa é uma produção independente, sem patrocínio de qualquer natureza.

As menções a obras são espontâneas e não constituem indicação de compra.

Esse material foi redigido por um humano sem uso de inteligência artificial.

Você pode usar trechos do texto, desde que cite a fonte.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

INSCREVA-SE EM BIBLIOCANTO

Não custa nada se inscrever e você recebe os posts novos por e-mail.

Obrigado!

©2023 por Bibliocanto. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page