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MIGUEL BAKUN - O EXPRESSIONISTA PARANAENSE

Miguel Bakun é uma das maiores expressões da pintura modernista paranaense.


Miguel Bakun nasceu na colônia ucraniana de Mallet. Iniciou no desenho e na pintura por influência do amigo e também pintor José Pancetti, mas desenvolveu-se como autodidata.


Apesar das dificuldades, surpreendentemente, ele conseguiu viver de sua arte a partir dos anos 30 em Curitiba. A cidade, naquela época, estava totalmente à margem da vida artística e cultural do Rio e São Paulo.



Sem título, óleo sobre tela, 1947 - Miguel Bakum (1909-1963)Sem título

Sem título, óleo sobre tela, 1947 - Miguel Bakum (1909-1963)


A partir da década de 40, Bakun conquistou o reconhecimento do meio artístico curitibano. Ele acabaria sendo conhecido como o “Van Gogh” paranaense. Infelizmente, Bakun também teve o mesmo fim trágico do mestre holandês.


Hoje, sua obra se afirma como uma das relevantes no conjunto da pintura paranaense do século XX.


Mata de pinheiros, óleo sobre tela, 1949 – Miguel Bakun (1909-1963)

Mata de pinheiros, óleo sobre tela, 1949 – Miguel Bakun (1909-1963)


Miguel Bakun, pintor autodidata

Desde o começo, o que mais chamou a atenção nas telas de Bakun foi seu impressionismo particular, fruto de seu autodidatismo. Logo ele próprio foi comparado a Van Gogh. Entretanto, se houve influência, isso ocorreu por meio de ilustrações em revistas que chegaram ao pintor.


Miguel Bakun caiu no gosto do meio artístico estabelecido em Curitiba na época, que aspirava por antiacademicismo. Ele foi suplantando, pouco a pouco, todas as limitações materiais e intelectuais do ambiente em que se desenvolvia.


Assim, Bakun fez amizade com os artistas locais, inclusive Guido Viaro, a mais importante figura do meio artístico paranaense na época.


Miguel Bakun, sem título, óleo sobre tela, s/d.

Miguel Bakun, sem título, óleo sobre tela, s/d.

Artista difícil de classificar

Miguel Bakun dispunha de tintas de má qualidade e foi criticado por excessivo empastamento. Mas essa limitação material acabou por ser incorporada criativamente e se tornou uma característica de sua obra.


Graças à sua habilidade, suas telas mostram como resultado um equilíbrio de tons muito particular. Em Bakun, as paisagens solitárias dos campos e pinheirais do Paraná têm uma luz muito própria, inventada. Essa solidão e luminosidade transcende para suas paisagens urbanas.


A perspectiva abordada pelo artista foge ao padrão mais acadêmico. Isso é resultado de seu autodidatismo, mas é também onde reside parte de sua originalidade. As perspectivas inesperadas dos objetos se aliam às cores opacas, o que resulta numa potencialização da sensação de vazio.


Essas características fizeram com que a obra de Miguel Bakun, desde seu início, fosse vista como moderna, antiacadêmica. Mas isso são apenas rótulos. Para o observador de hoje, distanciado em décadas das discussões estéticas modernistas, a obra de Miguel Bakun impressiona e surpreende.


Sem título, óleo sobre tela, s/d - Miguel Bakun (1909-1963)

Sem título, óleo sobre tela, s/d - Miguel Bakun (1909-1963)


Miguel Bakun, eslavo nascido no Paraná

Talvez o melhor retrato de Miguel Bakun não seja nem de sua autoria nem seja um quadro, mas um texto do grande pintor Guido Viaro:

“Bakun é um eslavo, nascido no Paraná.
Tudo nele é eslavo: cor, malares, cabelo e olhar... um desses olhares dolorosos e resignados; uma dessas figuras que os dostoiévskis russos tão magistralmente desenham a branco e preto; destas figuras entalhadas na madeira que só a morte pode destruir; destas figuras empastadas de ternura e perfídia, de generosidade e egoísmo, uma destas almas para as quais o sacrifício e a delação estão no mesmo nível, – tudo apenas questão de momento. Chama a atenção esta ida e volta, – esta obstinação em querer ser humilde à força, em ostentar uma pobreza franciscana, quando nele tudo é revolta, sem porém ter a coragem dos russos, de fazer o gesto e de tudo perder: Bakun sempre se perde no meio, não por cálculo, mas por uma fatalidade que lhe pesa nas costas.”
Autorretrato, década de 1940, óleo sobre tela - Miguel Bakum (1909-1963)

Autorretrato, década de 1940, óleo sobre tela - Miguel Bakum (1909-1963)

Ainda de acordo com Viaro:

“É uma dessas criaturas que contraria a si mesma – ele gosta de andar, como salmão, sempre contra correnteza, sabendo de antemão que isso a nada leva –, porque depois dessa obstinação entrega-se todo sem resistência pelo preço que os outros querem.
É a vaidade incomensurável que lhe dá forças para resistir. Por isso ele gosta, sente um prazer de mártir em se ciliciar – posta na cabeça a auréola do santo martirizado – para justificar o calvário ao qual está destinado.”

Na descrição de Viaro, Bakun emerge como um ser deslocado. Isso encontra correspondência em suas paisagens solitárias, com árvores silenciosas e uma luz que não parece desse mundo. Essas paisagens não são realistas, elas são um mundo à parte, também ele deslocado.


Viaro esteve atento a essa relação entre obra e autor:

“A pintura deste estranho Bakun, devemos dizê-lo sem restrições, é antes de tudo invulgar e antidecorativa. É uma pintura que é mais ele mesmo do que a natureza, uma pintura que não necessita campo nem modelo para exprimir aquilo que ele quer dizer – é uma pintura subjetiva, sem sol nem ar, como a própria alma dele.”

Guido Viaro retratou Miguel Bakun em um de seus mais famosos quadros, uma confirmação pictórica de suas impressões escritas.


Guido Viaro, Homem sem rumo, 1940, óleo sobre tela – Guido Viaro (1897-1971)

Guido Viaro, Homem sem rumo, 1940, óleo sobre tela – Guido Viaro (1897-1971)

MIGUEL BAKUM

O artista nasceu em 1909, em Mallet, colônia ucraniana no interior do Paraná. Passou parte de sua infância e adolescência em Ponta Grossa.


Aos 17 anos se alistou na Escola de Aprendizes da Marinha, em Paranaguá. De lá foi transferido para o Rio de Janeiro, onde conheceu José Pancetti, que influenciou o início de sua carreira.

Em 1930, um acidente num navio encerrou sua carreira de marinheiro. Ele retornou para Curitiba onde trabalhou como fotógrafo ambulante, pintor de letreiros e decorador de interiores. No ano seguinte decidiu se dedicar à pintura e montar seu ateliê.

Em 1938, casou-se com a viúva Teresa Veneri, mãe de três filhos. No ano seguinte, viajou para o Rio de Janeiro, onde tentou se estabelecer, e reencontrou Pancetti, mas logo retornou a Curitiba.

A partir de 1940, Bakun participou de vários salões e coletivas de arte em Curitiba. Em 1946, participou do III Salão Paranaense de Belas Artes. Nessa ocasião, Guido Viaro, Armando Ribeiro Pinto e Andrade Muricy publicaram três importantes textos sobre o artista.

Ao longo da década de 50, Bakun participou de várias mostras, tornando-se um artista reconhecido no ambiente artístico curitibano. Ele viria, porém, tirar sua própria vida em 1963.


Bibliografia

JUSTINO, Maria José. Guido Viaro, um visionário da arte. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer - MON, 2007.

MUSEU OSCAR NIEMEYER. Miguel Bakun - na beira do mundo. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer - MON, 2010.

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3 comentários

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Janete Felix Palma
há 12 horas
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Olá, Professor Cleverson Puxa, não conheci o pintor Miguel Bakun. Eu lembro mais de Poty Lazzarotto, que tem algumas das suas pinturas espalhadas pela cidade. Foi interessante ler o seu texto sobre Miguel Bakun e pesquisando no Google, pude ver várias obras. De fato, lembra um pouco traços de Van Gogh, outro pintor, que também gosto muito.

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Convidado:
há 2 dias

Não é o tipo de pintura que gosto de admirar, mas achei muito boa essa iniciativa de trazer artistas paranaenses! Miguel Bakun eu não conhecia. Traga mais.

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Ribas Carneiro
Ribas Carneiro
há 2 dias
Respondendo a

A pintura paranaense é muito rica! Vou revisar um post sobre o Guido viaro e depois outro sobre o Garfunkel. Há muita coisa boa por aí. O Miguel Bakun já teve até uma exibição bem completa no MON, vale a pena conhecer!

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