A ALFABETIZAÇÃO DE NOSSO FILHO EM CASA
- Ribas Carneiro
- 23 de ago. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 29 de dez. de 2025
Relato sobre a alfabetização de nosso filho em casa, com as inseguranças, os obstáculos e resultados.
Ele leu toda a série Harry Potter aos 8 anos
A alfabetização de nosso filho em casa, a partir dos 4 anos, fez dele um leitor. Aos 8, ele já tinha lido toda a série Harry Potter, inclusive o último livro com mais de 800 páginas. A partir dos 9 anos, começou a ler as aventuras de Sherlock Holmes.
Hoje, o contato com a literatura esfriou um pouco, mas ainda é um jovem leitor. Para além da literatura, seu desempenho escolar é plenamente satisfatório. Ele tem uma rotina de estudos e quase não precisa ser lembrado das lições de casa.
Como isso foi possível? Não sei ao certo. Há vários fatores para isso, mas até para tentar descobrir conto aqui como a coisa toda aconteceu.
Tudo o que fizemos o foi paralelamente à escola. A alfabetização em casa de nosso filho ocorreu sem nenhuma atitude radical. Não fizemos homeschooling, apenas iniciamos a pré-alfabetização dele aos 3 anos, em horários curtos antes do jantar.
Começamos com o Kumon, com aulas semanais de matemática e prática em casa de 15 minutos todos os dias. Algum tempo depois iniciamos a alfabetização.
Começos: rotina de leitura para o bebê dormir
Quando ele era bem pequenininho estimulávamos a interação verbal. Mais importante nesse período foi evitar a exposição dele à tela de celular e limitar o tempo de TV. Sabíamos que a exposição precoce acarreta problemas.
Além disso, tínhamos muita coisa para mostrar para ele; o mundo é cheio de novidades para um bebê, ele não precisava estar fixado numa tela.
Também começamos com as canções infantis. Gostávamos muito das composições do Palavra Cantada, grupo com ótimas letras e qualidade musical. À época, a Galinha Pintadinha era inevitável, mas buscávamos selecionar as opções musicais.
Tínhamos ainda vários livros infantis, de banho, de pano, de plástico e papelão. Historinhas curtas, repetidas milhares de vezes antes de dormir. Lembro até hoje de Tobi, a escavadeira, livrinho de banho repetido quase todos os dias.
Aos poucos migramos para livros mais tradicionais, sempre com histórias curtas que embalavam o sono. Quantas vezes eu próprio bocejava ali, quase caindo de sono depois de um dia daqueles! Mas é preciso persistir!
Às vezes, quando ele permitia, eu tentava um livro novo. De qualquer forma líamos de tudo, inclusive poemas de Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Além disso, às vezes eu contava histórias que ouvi em minha infância, inclusive contos folclóricos.
Essa foi a base. É importante ler para os bebês. A leitura em voz alta é o primeiro contato da criança com o ritmo e a construção sintática do texto escrito. Esse é o primeiro passo. Daniel Pennac deixa isso bem claro em seu Como um romance.
Apreensões com o processo educacional
Já tínhamos clareza de que as escolas no Brasil não alfabetizam adequadamente. Somos professores universitários e vemos diariamente os resultados da formação escolar em nossos alunos. Posto o problema, tínhamos de buscar a solução.
Inicialmente, minha esposa pesquisou métodos de alfabetização. Foi difícil. De repente surgia um método infalível, mas logo verificávamos que não tinha uma comprovação empírica razoável.
Depois de muita busca o método fonético foi o que mais correspondeu ao que procurávamos. Ele tinha eficácia comprovada, afinal fomos alfabetizados por ele. Também combinava com a própria estrutura da escrita da língua portuguesa, que é basicamente fonética.
Precisávamos aprender a alfabetizar
Apesar de ser professor de português, eu nunca havia trabalhado com alfabetização. Sabia alguma coisa sobre o assunto em termos teóricos. Minha maior experiência se deu em sala com alunos do segundo ciclo, jovens e adultos. Era necessário, então, primeiro aprender.
Buscamos um caminho que nos dirigisse no ensino fonético da língua escrita. A pesquisa nos levou a conhecer o canal do Youtube Como educar seus filhos, de Carlos Nadalin.
Como foi o começo: a pré-alfabetização
Aos poucos fomos implementando as atividades que aprendíamos e descobrindo como fazer. Às vezes não dava lá muito certo, então fazíamos ajustes ou tentávamos novas abordagens. A pré-alfabetização seguia com foco nos sons, nas palavras, rimas e ritmos.
Realizamos também várias atividades de coordenação motora, inclusive coordenação motora fina, com traços, linhas, e muitas repetições. Algumas atividades encontradas na internet e um caderno de caligrafia deram muito resultado. Em pouco tempo tínhamos nosso pequeno a escrever suas primeiras letras.
Minha esposa fez o curso de pré-alfabetização do Nadalin, online. Lá foi indicado um livro de alfabetização fonética, o Alfabetização: método fônico, de Fernando C. Capovilla e Alessandra G. Seabra.
Assim, depois de atividades de coordenação motora, passamos a seguir o livro. Primeiro lemos todo o volume do professor, com informações muito importantes. Logo iniciamos as vogais, a, e, i o, u e depois os sons mais fáceis, das letras f, j, m e assim por diante.
É importante trabalhar primeiro com os sons mais simples, inclusive com o uso de algumas cançõezinhas. Aos poucos o processo flui de maneira natural.
Rotina
Já tínhamos uma rotina de lição de casa estabelecida pelo Kumon: a cada dia um bloquinho de atividades, que durava em torno de 10 ou 15 minutos. Assim, acrescentamos 10 ou 20 minutos de lições de traçados, leitura dos fonemas e exercícios do livro.
Como a escolinha infantil não tinha lição de casa, estávamos livres para trabalhar. Na escola não havia a aprendizagem de sons ou letras, então restou a casa como lugar de alfabetização.
A aprendizagem particular é muito mais rápida, então não é preciso dedicar horas e horas, nem explicar muita coisa. Poucos minutos diários já dão conta do conteúdo.
Antes do jantar fazíamos as lições e à noite continuávamos a ler nossos livrinhos. A rotina incluia os finais de semana.
De repente tudo mudou
Guiados pelo livro de Capovilla e uma rotina de estudos estabelecida, em um ano tínhamos avançado muito, já tratando os dígrafos, “nh”, “ch” etc. Mas uma repentina mudança de planos fez as coisas saírem um pouco de controle.
Iríamos mudar para Portugal por um período de três anos. Foi tudo muito repentino. A mudança fez com que nosso filho entrasse na primeira série de uma escola portuguesa.
Na Europa, o ano letivo começa no segundo semestre, em julho, e dura até junho do ano seguinte. Como chegamos em setembro, o ano letivo já tinha começado e nosso filho teria de fazer um teste para ver se acompanhava a turma ou ficava na educação infantil.
Ele passou no teste, pois já estava praticamente alfabetizado, além de bem adiantado com a matemática. Dessa forma, mesmo iniciando as aulas com dois meses de atraso, ele acompanhou tudo muito bem.
A escola pública perto de casa atendia perfeitamente aos nossos critérios de qualidade e inclusive nos surpreendeu em muitos aspectos. Por isso, pudemos confiar à escola o restante do processo de alfabetização de nosso filho.
O incentivo à leitura e acompanhamento dos estudos
Apesar de ser uma escola muito boa, não descuidamos. Acompanhávamos tudo, mantínhamos a rotina de lição de casa (lá havia muita lição de casa) e leitura antes de rezar e dormir.
Como nós, os pais, estávamos sempre lendo e os livros sempre estiveram por perto, muito naturalmente as crianças passaram a manusear livros e lerem por conta própria.
Vários livros foram importantes nesse período, mas devo destacar alguns marcos especiais, que acabaram por influenciar muito o desempenho de leitura de nosso pequeno.
Numa das primeiras feiras de livros que visitamos em Porto encontramos o Gravitty Falls - Diário de Dipper. Era o livro relacionado à série de TV. A série de animação é muito boa e o livro não ficava atrás. Uma das vantagens é ter vários tipos de letra, inclusive cursiva, acostumando o pequeno leitor com as variações de tipos gráficos.
Algum tempo depois surgiu lá em casa o fantástico O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde. Trata-se de uma história bem conhecida, uma narrativa primorosa do grande escritor inglês. A tradução a que tivemos acesso era muito bem feita e, mesmo com alguns tropeços, o nosso leitor iniciante leu com competência.
Esse livro permitiu várias trocas de experiências, afinal eu tinha lido na adolescência uma versão em inglês facilitada e a história tinha me marcado muito. Foi ótimo reviver a leitura com meu filho.
Contando parece que tudo se desenvolveu de maneira contínua, mas não foi bem assim. Esses dois livros, por exemplo, rolaram por meses pela casa. Apenas depois de algum tempo começaram a ser folheados, depois lidos, então abandonados, depois retomados, num ritmo natural, sem pressa nem compromisso.
Além disso, essas leituras foram intercaladas com livros emprestados da escola e releituras dos livrinhos infantis.
O momento de Harry Potter
Estava preparado o caminho para a leitura de Harry Potter. É claro que nosso filho assistiu a saga, mas não todos os filmes. Ele já tinha tentado ler, Harry Potter e a pedra filosofal, mas desistiu. Retomou e, apesar de alguma dificuldade inicial, apegou-se à leitura.
O resultado foi que tivemos de comprar toda a série. Deve-se destacar aqui que ele leu na excelente tradução portuguesa.
Essas leituras não podiam cair no esquecimento, elas precisavam estar cada vez mais presentes na rotina. Assim, a cada capítulo eu dedicava um tempo para perguntar e, principalmente, ouvir os comentários que vinham do pequeno leitor. Não era questionário, a reprodução da história lida e os comentários surgiam de maneira espontânea, natural.
Conclusão
Não sei se fizemos certo, talvez tenhamos errado em vários pontos. Poderia, talvez, ter sido ainda melhor, mas os resultados são satisfatórios. Nosso filho se tornou, ao menos por um tempo, um leitor ávido e comprometido.
Ensinei a ele como fazer uma lista de livros lidos e fichas de leitura, para lembrar dos aspectos principais das obras. Coisa simples. No computador, ele escreve a referência bibliográfica dentro das normas da ABNT e faz uma nota de rodapé com um comentário sucinto.
O mais importante é que nos divertimos conversando sobre essas leituras.
Ah sim! A irmã mais nova seguiu o mesmo caminho. Com ela não tivemos um encontro tão intenso com a literatura, mas também não há desprezo total. Não é produtivo forçar a experiência, ainda há tempo pela frente.
E na sua casa? Como é, como foi, como será?
Se você passou, passa ou prevê que vai passar por uma experiência parecida, escreva. É bom trocar ideias. Em alguns momentos dessa caminhada nós nos sentimos sozinhos e um pouco desanimados. É melhor quando se pode compartilhar.
Há vários caminhos para o ensino em casa, muitas possibilidades, o que não pode acontecer é deixar de fazer alguma coisa.
Na realidade escolar que nos cerca temos de assumir o papel de educadores.
O importante é dedicar um tempinho a essa rotina.

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